Walkman completa 47 anos como marco da música portátil
Dispositivo da Sony vendeu 400 milhões de unidades e mudou hábitos de consumo musical em 1979

O Walkman, criado pela Sony, completa 47 anos nesta semana como um dos equipamentos mais revolucionários da história da música. Lançado em 1979, o aparelho não apenas popularizou a ideia de ouvir canções em movimento, mas também transformou a forma como as pessoas se relacionavam com os sons do dia a dia. Antes dele, a música era um privilégio de quem tinha toca-discos em casa ou frequentava rádios públicas. Com o Walkman, bastava um par de fones e uma fita cassete para levar sua trilha sonora para qualquer lugar.
A invenção nasceu de um problema simples e de uma solução engenhosa. Na década de 1970, o engenheiro da Sony Masaru Ibuka, um apaixonado por música, queria ouvir ópera durante viagens de avião sem incomodar os outros passageiros. Junto ao colega Akio Morita, ele encomendou um protótipo de um reprodutor portátil de fitas cassete. O resultado foi o TP-LS22, lançado como Walkman em julho de 1979 no Japão. O nome, sugerido por Morita, refletia a promessa do produto: levar a música para passear. O dispositivo pesava pouco mais de 300 gramas, tinha autonomia de 45 minutos e vinha com um par de fones de ouvido que, na época, eram vistos como um luxo.
Em poucos anos, o Walkman deixou de ser um artigo de nicho para se tornar um fenômeno global. A Sony vendeu mais de 400 milhões de unidades até o final dos anos 1990, quando o CD player portátil começou a tomar seu lugar. Mas seu legado vai muito além das vendas. O aparelho criou uma cultura de consumo musical individualizado, onde cada pessoa podia escolher sua trilha sonora sem depender de rádios ou toca-discos compartilhados. Artistas como Michael Jackson e Madonna viram suas músicas ganharem novo alcance graças à portabilidade do Walkman, que permitia aos fãs ouvir seus hits repetidas vezes, em qualquer ambiente.
Para quem viveu essa era, o Walkman não era apenas um aparelho, mas uma extensão da personalidade. Adolescentes dos anos 1980 e 1990 usavam o dispositivo para criar playlists que refletiam suas identidades, desde o rock até o pop. A prática de gravar músicas de programas de rádio ou de amigos também se tornou comum, um ritual que hoje parece quase artesanal diante dos serviços de streaming. No Tocantins, onde a cultura musical sempre teve forte presença — seja nas festas de rodeio, nos forrós ou nas rádios locais —, o Walkman ajudou a disseminar gêneros que iam do sertanejo ao rock nacional, tornando a música mais acessível em uma região de dimensões continentais.
O impacto do Walkman também pode ser medido em números. Segundo dados da Sony, em seus primeiros 10 anos, o dispositivo representou 30% do faturamento da empresa em eletrônicos de consumo. Nos Estados Unidos, pesquisas da época mostravam que 60% dos jovens entre 15 e 24 anos possuíam um Walkman, um índice que só seria superado décadas depois pelos smartphones. A portabilidade do aparelho também impulsionou a indústria de fitas cassete, que viu suas vendas triplicarem entre 1980 e 1985. Mesmo após seu declínio, o Walkman deixou marcas profundas na forma como a música é consumida hoje, inspirando desde os iPods até os serviços de streaming.
O que muitos não sabem é que o Walkman quase não saiu do Japão. Inicialmente, a Sony não acreditava que o produto teria apelo fora do mercado local. Foi só após uma campanha agressiva nos Estados Unidos, onde a empresa alugou aparelhos para celebridades e DJs, que o dispositivo ganhou tração internacional. No Brasil, o Walkman chegou no início dos anos 1980 e rapidamente se tornou um sucesso entre a classe média, que via nele uma forma de modernizar o lazer. Em Palmas, por exemplo, o aparelho era comum em ônibus intermunicipais, onde passageiros ouviam suas fitas enquanto percorriam as estradas do Tocantins.
Hoje, o Walkman é um objeto de museu, mas seu DNA vive nos algoritmos das plataformas digitais. A ideia de personalização da música, central no sucesso do Walkman, é a mesma que move serviços como Spotify e Apple Music. Até mesmo o ato de criar playlists, que nasceu com as fitas gravadas à mão, ressurge hoje nas listas colaborativas e nas recomendações baseadas em gostos pessoais. Para a nova geração, pode ser difícil imaginar um mundo sem streaming, mas é justamente essa evolução que o Walkman ajudou a pavimentar.
A Sony ainda mantém o nome Walkman vivo em seus players de MP3 e smartphones, mas o equipamento original segue como um símbolo de uma época em que a música era tangível, física e, acima de tudo, pessoal. Quarenta e sete anos depois, ele continua a ensinar uma lição simples: a tecnologia mais revolucionária é aquela que consegue se tornar invisível, integrando-se ao cotidiano das pessoas sem chamar atenção para si mesma.
Enquanto os serviços digitais dominam o mercado, o Walkman permanece como um lembrete de que a inovação nem sempre precisa ser disruptiva para ser transformadora. Às vezes, basta resolver um problema do dia a dia — como ouvir música sem incomodar ninguém — para mudar a história.