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Dentro da sala de cirurgia: a rotina extenuante de quem salva vidas

Cirurgião realiza múltiplas operações diárias e enfrenta desafios de uma profissão que não permite pausas

📝 Redação CCN05 de junho de 2026 às 21:31👁 2 leituras
Dentro da sala de cirurgia: a rotina extenuante de quem salva vidas

A madrugada ainda não termina quando o cirurgião já está de pé. Às 6 da manhã, enquanto a maioria dos tocantinenses se prepara para o café da manhã, profissionais da medicina já vestem seus uniformes nos centros cirúrgicos das grandes capitais do país. A rotina do médico especializado em cirurgias revela uma realidade pouco conhecida: jornadas que se estendem por horas a fio, sem tempo para as necessidades básicas como uma refeição tranquila.

No A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, um centro de referência nacional em tratamento oncológico, o cirurgião Luiz Paulo Kowalski exemplifica essa rotina. Naquela quarta-feira chuvosa e fria, ele enfrentaria quatro procedimentos cirúrgicos ao longo do dia. Entre as operações, aproveitava uma brecha rápida logo após as 13h para cumprir com a correspondência eletrônica e outras demandas administrativas que se acumulam nas mesas dos hospitais.

A intensidade não é exceção. Alguns cirurgiões realizam até quinze operações em um único dia, número que impressiona quem está fora dessa realidade. Cada procedimento exige total concentração, precisão absoluta e conhecimento profundo. Não há margem para distração ou cansaço. Enquanto isso, as refeições viram secundárias. O almoço frequentemente não acontece, substituído por cafezinhos rápidos ou nem isso.

Para quem trabalha na medicina de Palmas e do interior do Tocantins, essa pressão também existe, ainda que em contextos diferentes. Os profissionais da saúde no estado enfrentam desafios similares: falta de recursos, demanda crescente de pacientes e a necessidade constante de atualização. Aqui, onde a rede privada é mais concentrada e o sistema público atende populações espalhadas em regiões amplas, o estresse assume outras características, mas permanece intenso.

A jornada de um cirurgião moderno combina atividades que vão muito além da sala de operações. Há relatórios a preencher, pacientes a avaliar antes e depois do procedimento, discussões com equipes multidisciplinares e, cada vez mais, demandas burocráticas que consomem tempo precioso. Kowalski, como muitos colegas seus, encontra-se nessa encruzilhada entre a medicina que aprendeu a fazer e as exigências administrativas que a profissão contemporânea impõe.

O impacto dessa realidade vai além do bem-estar individual do médico. Afeta diretamente a qualidade de vida desses profissionais, aumentando riscos de burnout e problemas de saúde mental. Universidades e associações médicas começam a discutir essa questão, entendendo que um cirurgião esgotado pode, ainda que involuntariamente, comprometer a segurança de seus pacientes.

Os números falam por si. Realizar até quinze cirurgias diárias significa uma média de vinte a trinta minutos por operação, incluindo preparação e finalização. O corpo humano, mesmo treinado e dedicado, tem limites. O cansaço acumula-se. A concentração flutua. E em uma profissão onde o erro pode custar vidas, essa equação torna-se preocupante.

Hospitais e gestores de saúde enfrentam um dilema. A demanda por procedimentos cirúrgicos cresce continuamente. A população envelhece. Mais pessoas precisam de cirurgias. Simultaneamente, formar novos cirurgiões leva anos e requer investimento considerável. A solução não é simples e passa por revisão de processos, investimento em recursos humanos e, talvez, uma reflexão profunda sobre o modelo de gestão hospitalar que vigorou até aqui. Tanto em São Paulo quanto em Palmas, essa conversa precisa acontecer com urgência.