EPIs: proteção que não tem profissão nem endereço certo
Trabalhadores de Palmas e interior mostram que o uso de equipamentos de segurança vai além das grandes obras

Pedreiros em obras residenciais no Residencial Morumbi, eletricistas consertando fiações em apartamentos da 104 Sul ou serralheiros montando estruturas no Setor de Indústria e Comércio de Palmas. Em Gurupi, produtores rurais manuseando defensivos agrícolas no campo. Em Porto Nacional, pintores reformando casas no Centro Histórico. Em todas essas cenas do cotidiano tocantinense, um detalhe pode fazer toda a diferença entre um dia normal e um acidente que muda vidas: o uso dos Equipamentos de Proteção Individual, os EPIs.
O problema não está apenas nas grandes construtoras ou nas indústrias. Quem trabalha com as próprias mãos — seja consertando um vazamento em casa, aparando árvores no quintal ou até mesmo capinando um terreno — está exposto a riscos que muitas vezes são subestimados. Um martelo que escapa, uma faísca elétrica, um produto químico derramado ou até mesmo um galho que cai podem causar lesões graves. No Tocantins, onde o setor de construção civil movimenta R$ 1,2 bilhão por ano e emprega mais de 30 mil pessoas, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado (FIETO), a falta de proteção não é apenas uma questão de descuido — é um problema que afeta diretamente famílias inteiras.
Em Palmas, a Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (SMTAS) registrou, nos últimos 12 meses, 142 acidentes de trabalho envolvendo profissionais autônomos e microempreendedores individuais. Desses casos, 68% poderiam ter sido evitados com o uso correto de EPIs, como luvas, óculos, capacetes e botas. "Muitos desses trabalhadores acreditam que, por não estarem em uma grande empresa, não precisam se proteger. Mas a realidade é que o risco existe em qualquer atividade", alerta a engenheira de segurança do trabalho da SMTAS, Maria Aparecida Oliveira.
No interior, a situação não é diferente. Em Araguaína, a Associação Comercial e Industrial (ACIA) realizou uma campanha no ano passado para conscientizar pequenos empresários sobre a importância dos EPIs. "Recebemos relatos de pintores que perderam a visão por não usar óculos de proteção e de pedreiros que sofreram fraturas por não usar capacetes", conta o presidente da entidade, João Batista Silva. A campanha atingiu mais de 200 profissionais, mas a adesão ainda é baixa. "Muitos alegam que os equipamentos são caros ou desconfortáveis, mas não sabem que há programas de distribuição gratuita em parceria com o Sesi e o Senai", completa Silva.
Os números mostram que o problema não é exclusivo do Tocantins. Segundo a Previdência Social, em 2023, foram registrados 571 mil acidentes de trabalho no Brasil, sendo que 30% deles envolviam profissionais sem vínculo empregatício. No estado, a Delegacia Regional do Trabalho (DRT-TO) multou, no primeiro semestre deste ano, 12 empresas por falta de EPIs, mas o foco agora está nos trabalhadores autônomos. "A fiscalização é importante, mas a conscientização é ainda mais urgente", afirma o delegado regional do Trabalho, Carlos Eduardo Mendes.
Para quem trabalha por conta própria, a realidade é ainda mais dura. Em Porto Nacional, o pedreiro Antônio Carlos da Silva, 42 anos, conta que já sofreu dois acidentes por falta de proteção. "Na primeira vez, um pedaço de tijolo caiu no meu pé porque eu não estava usando bota. Na segunda, uma faísca elétrica queimou minha mão. Agora, não saio mais para trabalhar sem luvas e óculos", relata. Ele faz parte de um grupo de 15 profissionais que se organizaram para comprar EPIs em conjunto, reduzindo os custos. "Antes, a gente comprava separado e pagava mais caro. Agora, dividimos a compra e todo mundo tem o que precisa", explica.
A solução, no entanto, não depende apenas dos trabalhadores. Em Palmas, a prefeitura oferece cursos gratuitos de segurança do trabalho em parceria com o Senai, mas a demanda supera a oferta. "Temos turmas lotadas, mas ainda faltam vagas para atender a todos que precisam", diz a coordenadora do programa, Fernanda Lima. No interior, a situação é ainda mais crítica. Em Gurupi, por exemplo, não há cursos presenciais, e os trabalhadores precisam se deslocar até Palmas ou Araguaína para participar.
O que fazer, então? Para especialistas, a resposta passa por três frentes: fiscalização mais rigorosa, campanhas de conscientização e facilitação do acesso aos equipamentos. Em Palmas, a SMTAS já estuda criar um programa de empréstimo de EPIs para trabalhadores autônomos, semelhante ao que já existe em algumas cidades do Sul do país. "A ideia é que o profissional possa pegar os equipamentos emprestados e devolvê-los após o uso, pagando apenas uma pequena taxa de manutenção", adianta Maria Aparecida Oliveira.
Enquanto isso, no interior, a luta é pela informação. Em Miracema do Tocantins, a prefeitura iniciou recentemente uma série de palestras em feiras livres e associações de bairro para alertar sobre os riscos. "Muitos desses trabalhadores não têm acesso a internet ou jornais, então levamos a informação até eles", conta o secretário municipal de Trabalho, Paulo Roberto Costa. A iniciativa já alcançou mais de 300 pessoas em três meses.
A mensagem é clara: a segurança não tem preço, mas o descuido pode custar muito caro. Seja em uma obra na capital ou em um serviço no interior, o uso do EPI não é um luxo — é uma necessidade. E quem ainda não se convenceu disso, talvez só precise de um lembrete na prática: um acidente pode acontecer a qualquer momento, e quando acontece, não há EPI que recupere o que foi perdido.
Ainda este mês, a DRT-TO deve lançar uma cartilha digital com orientações sobre EPIs para trabalhadores autônomos. O material será distribuído gratuitamente nas redes sociais e em postos de atendimento da prefeitura. Enquanto isso, a luta continua — não apenas pela fiscalização, mas pela mudança de mentalidade. Porque, afinal, proteger-se não é questão de sorte. É questão de escolha.