União Europeia suspende importação de carne bovina do Brasil
Bloco europeu interrompe compras a partir desta quinta-feira (3) por divergências em regras sanitárias

A União Europeia (UE) interrompeu nesta quinta-feira (3) a importação de carne bovina e outros produtos de origem animal do Brasil. A decisão, que afeta diretamente frigoríficos e pecuaristas, não se deve ao volume de exportações, mas à perda de credibilidade do país perante as normas sanitárias do bloco. O veto foi anunciado após a UE excluir o Brasil de sua lista de nações que cumprem suas exigências sobre o uso de antimicrobianos na pecuária, uma regra que o bloco considera fundamental para garantir a segurança alimentar.
A suspensão, que começa a valer imediatamente, não é um bloqueio total, mas uma restrição seletiva. A UE representa cerca de 15% das exportações brasileiras de carne bovina, um mercado estratégico para a indústria nacional. No entanto, o impacto maior está na sinalização que a decisão envia aos demais parceiros comerciais. A UE funciona como uma espécie de selo de qualidade global, e perder acesso a esse mercado pode dificultar negociações com outros países que seguem padrões semelhantes. Além disso, a medida afeta diretamente os frigoríficos que já haviam se adequado às exigências europeias, investindo em certificações e processos para atender ao bloco.
A divergência entre Brasil e UE gira em torno do uso de antimicrobianos na criação de gado. O bloco europeu adota um rigoroso controle sobre o tema, proibindo substâncias que considera prejudiciais à saúde humana ou que possam contribuir para a resistência bacteriana. O Brasil, por sua vez, permite o uso de alguns desses compostos em doses controladas, uma prática comum na pecuária nacional. A UE alega que o país não apresentou garantias suficientes de que os produtos exportados estão livres de resíduos que violem suas normas. A decisão não foi motivada por casos concretos de contaminação, mas sim pela falta de alinhamento regulatório.
Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Brasil exportou cerca de 200 mil toneladas de carne bovina para a UE em 2023, um valor que representa menos de 5% do total embarcado pelo país. No entanto, o valor médio pago pelo bloco é significativamente maior do que o de outros mercados, como China e Estados Unidos. Em 2023, a UE pagou, em média, US$ 7,5 mil por tonelada de carne bovina brasileira, enquanto a China pagou US$ 5,8 mil e os EUA, US$ 6,2 mil. Essa diferença reflete não apenas a qualidade percebida, mas também a disposição do mercado europeu em pagar mais por produtos que atendem a seus padrões.
A medida afeta principalmente os frigoríficos que já haviam direcionado parte de sua produção para a UE, como a JBS e a Marfrig, duas das maiores empresas do setor no Brasil. Ambas já haviam investido em certificações e processos para atender ao bloco, e agora precisam readequar suas estratégias comerciais. "Perder o acesso à UE não é apenas uma questão de volume, mas de credibilidade", afirmou um executivo do setor, que pediu para não ser identificado. "O mercado europeu é um termômetro para outros países. Se a UE não confia, outros podem seguir o mesmo caminho."
A suspensão não é definitiva, mas exige que o Brasil apresente um plano concreto para se adequar às exigências europeias. A UE deu um prazo de 90 dias para que o governo brasileiro envie uma proposta de ajustes regulatórios. Caso não haja avanços, a restrição pode se tornar permanente. Enquanto isso, os frigoríficos brasileiros já começam a redirecionar parte de suas exportações para outros mercados, como o Oriente Médio e a Ásia, onde as exigências sanitárias são menos rígidas.
A decisão da UE também coloca em xeque a imagem do Brasil como fornecedor global de alimentos. O país é o maior exportador de carne bovina do mundo, com vendas para mais de 150 países. No entanto, a perda de acesso a um mercado que paga mais e exige mais qualidade pode sinalizar um recuo na competitividade do setor. "A UE não é o maior comprador, mas é o mais exigente", disse um analista do setor agropecuário. "Se o Brasil não conseguir se adequar, outros países podem ocupar esse espaço."
Enquanto o governo brasileiro negocia com a UE, a indústria já começa a sentir os efeitos práticos. Alguns frigoríficos relatam queda nas encomendas para a Europa, enquanto outros buscam alternativas rápidas para escoar a produção. A medida também levanta dúvidas sobre o futuro das negociações comerciais do Brasil com outros blocos, como o Mercosul, que podem ser influenciados pela imagem de insegurança sanitária que a decisão europeia reforça.