Saúde indígena em alerta contra perseguições no Tocantins
Trabalhadores denunciam assédio e perseguição após eleição no Dsei Tocantins — órgão atende 12 etnias em 30 municípios

Trabalhadores da saúde indígena do Tocantins denunciam perseguição e assédio moral após a eleição da nova gestão do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Tocantins. O caso, que envolve profissionais de diferentes etnias atendidas pela unidade, ganhou força nas últimas semanas, quando a atual direção assumiu o comando do órgão, responsável por 12 povos indígenas em 30 municípios tocantinenses.
A denúncia partiu de uma carta aberta assinada por servidores e contratados do Dsei, que relatam pressões para demissões, transferências forçadas e até perseguições políticas dentro da unidade. Segundo os trabalhadores, a situação piorou depois da posse da nova gestão, em dezembro do ano passado, quando mudanças na equipe e na rotina de atendimento passaram a ser justificadas como “reestruturação administrativa”. O documento, que circula entre os profissionais e lideranças indígenas, menciona casos de servidores que teriam sido afastados sem justificativa clara, enquanto outros relatam perseguição por terem apoiado candidatos derrotados nas eleições internas do órgão.
O Dsei Tocantins atende cerca de 12 etnias, incluindo os Karajá, Javaé, Xambioá e Apinajé, espalhadas por 30 municípios do estado, como Araguaína, Gurupi, Miracema do Tocantins e Tocantinópolis. A unidade é vinculada à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, e sua gestão interfere diretamente no atendimento a comunidades que dependem de serviços como consultas, vacinação e acompanhamento de doenças crônicas. Moradores de aldeias como a Ilha do Bananal e a Ilha do Cocal, no Rio Araguaia, já relataram atrasos em medicamentos e consultas desde o início das mudanças na equipe.
Entre os relatos dos trabalhadores, há casos de servidores que foram transferidos para unidades distantes de suas residências, como profissionais lotados em Palmas que foram realocados para aldeias em municípios como Dianópolis ou Paranã, a mais de 300 quilômetros da capital. Outros denunciam que a nova gestão teria ignorado protocolos de atendimento, priorizando contratações de profissionais sem experiência em saúde indígena. “Eles estão desmontando a estrutura que já existia, sem qualquer diálogo com as comunidades”, afirmou um servidor que preferiu não se identificar, temendo represálias.
A Sesai, responsável pelo órgão, ainda não se pronunciou oficialmente sobre as denúncias. Em nota enviada à imprensa local, o Dsei Tocantins afirmou que “as mudanças fazem parte de um processo de modernização” e que “todas as decisões são tomadas com base em critérios técnicos”. No entanto, os trabalhadores contestam essa versão. “Modernização não pode significar perseguição e desmonte do serviço público”, rebateu uma técnica de enfermagem que atua há oito anos na unidade.
O caso já chegou ao conhecimento de lideranças indígenas e de parlamentares tocantinenses. O deputado estadual Amilton Filho (PSDB), que acompanha a situação, afirmou que vai cobrar explicações da Sesai e do Ministério da Saúde. “A saúde indígena não pode ser tratada como moeda de troca política. Se há irregularidades, elas precisam ser apuradas”, declarou. Em Araguaína, município que concentra uma das maiores populações indígenas do estado, a situação também preocupa. A coordenadora da Casa de Saúde Indígena (Casai) local, Maria das Graças Silva, relatou que já houve relatos de profissionais que se sentiram pressionados a assinar documentos sem entender o teor.
Para as comunidades indígenas, a instabilidade no Dsei pode agravar problemas já enfrentados, como a falta de médicos especializados e a demora no atendimento de doenças como diabetes e hipertensão. Em aldeias como a do Povo Javaé, na Ilha do Bananal, moradores relatam que exames de rotina estão sendo adiados há meses. “A gente depende desses serviços. Se eles tirarem os profissionais que conhecem nosso povo, vai piorar ainda mais”, contou um morador que pediu anonimato.
A Sesai informou que está apurando as denúncias, mas não adiantou prazos ou detalhes sobre as investigações. Enquanto isso, os trabalhadores do Dsei Tocantins se organizam para pressionar por respostas. Uma reunião está marcada para esta semana com representantes do Ministério Público Federal (MPF) em Palmas, que já havia sido acionado por outras denúncias envolvendo a saúde indígena no estado. A expectativa é que o órgão possa intermediar um diálogo entre as partes e evitar que o atendimento às comunidades seja ainda mais prejudicado.
A situação coloca em xeque não só a gestão do Dsei Tocantins, mas também a política de saúde indígena no país, que já enfrenta críticas por falta de recursos e descontinuidade de projetos. No Tocantins, onde a população indígena soma cerca de 15 mil pessoas segundo dados do IBGE, a incerteza sobre o futuro dos serviços pode gerar um impacto social difícil de reverter.
Enquanto as investigações não avançam, a dúvida persiste: até quando as comunidades indígenas do Tocantins terão que conviver com a insegurança nos serviços que garantem sua saúde?