Pecuária nos EUA cede espaço para biocombustível
Minerva Foods aponta venda de terras antes usadas para gado nos EUA para cultivo de grãos destinados a biocombustível

A redução da oferta de carne bovina nos Estados Unidos e na Europa não é um mero ajuste de mercado, mas uma mudança estrutural que ganha força. Segundo a Minerva Foods, parte das terras antes dedicadas à pecuária nos EUA está sendo vendida para a produção de grãos voltados à fabricação de biocombustível. A empresa, que atua na cadeia de carne bovina, identificou essa tendência em relatório recente, destacando que o movimento afeta diretamente a disponibilidade de pastagens e, consequentemente, a capacidade de produção de gado.
A decisão de converter áreas de pastagem em plantações de soja ou milho para biocombustível não é pontual. Ela reflete uma estratégia de longo prazo de produtores rurais norte-americanos, que buscam se adaptar a um cenário de demanda crescente por energias renováveis. Nos últimos anos, governos e indústrias têm incentivado a substituição de combustíveis fósseis por alternativas mais limpas, e os grãos passaram a ser uma matéria-prima estratégica. A Minerva Foods aponta que, embora a pecuária ainda seja relevante, a pressão por terras para outros usos está alterando o perfil do setor agropecuário norte-americano.
Para quem depende da carne bovina, a mudança traz consequências imediatas. A oferta reduzida de pastagens pode encarecer a produção de gado, já que os criadores precisam buscar alternativas, como confinamentos ou importação de animais. Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de carne bovina, a redução do rebanho já é observada há anos, mas agora ganha um novo vetor: a competição por terras. A Minerva Foods estima que, nos últimos cinco anos, cerca de 15% das áreas antes usadas para pastagem foram redirecionadas para culturas agrícolas, especialmente nos estados do Meio-Oeste, como Iowa e Illinois.
A empresa não detalha quantas propriedades foram vendidas ou o volume exato de terras afetadas, mas reforça que o fenômeno é crescente. "A transformação não é cíclica, é estrutural", afirmou um porta-voz da Minerva Foods ao portal BeefPoint. Segundo ele, a tendência deve se manter nos próximos anos, à medida que a demanda por biocombustíveis cresce e os preços das commodities agrícolas se mantêm atrativos. A mudança também afeta os preços da carne nos mercados internacionais, já que a redução da oferta nos EUA e na Europa tende a pressionar os estoques globais.
O setor de biocombustíveis, por sua vez, comemora a expansão. A Associação Americana de Soja (ASA) informou que a área plantada com grãos para biocombustível aumentou 22% nos últimos três anos, impulsionada por políticas públicas que incentivam o uso de energias renováveis. Nos EUA, o etanol de milho já responde por cerca de 10% da gasolina consumida no país, e a expectativa é que a participação cresça ainda mais com a meta de neutralidade de carbono até 2050.
Para os consumidores, o impacto pode chegar aos preços. Analistas do mercado de commodities preveem que, se a tendência se mantiver, a carne bovina pode ficar até 15% mais cara nos próximos dois anos, especialmente em países que dependem de importações dos EUA e da Europa. A Minerva Foods, que exporta carne para mais de 100 países, já sinalizou que pode ajustar suas estratégias de compra para mitigar os efeitos da redução da oferta.
O que vem por aí? A Minerva Foods deve publicar um estudo detalhado sobre o tema ainda este ano, mapeando as regiões mais afetadas e projetando cenários para os próximos cinco anos. Enquanto isso, produtores rurais nos EUA avaliam se vale a pena manter a pecuária ou migrar para culturas agrícolas. A decisão, no entanto, não é simples: a pecuária exige investimentos em infraestrutura e mão de obra especializada, enquanto os grãos para biocombustível oferecem contratos de longo prazo com indústrias energéticas.