Cães e gatos pedem comida por hábito ou treinamento
Estudo explica como pets associam comportamentos a recompensas em lares tocantinenses

Cães e gatos não pedem comida apenas por fome. Muitos deles aprenderam que certos comportamentos — como olhar fixamente, choramingar ou encostar a pata — trazem recompensas, como um petisco ou um pedaço de comida da mesa. A revelação vem de tutores que observam diariamente esses sinais em seus animais, mas nem sempre entendem a origem do pedido.
O fenômeno é mais comum do que parece. Em Palmas, por exemplo, clínicas veterinárias como a Vida Animal, no bairro Sul, relatam casos frequentes de donos que confundem o apetite natural do pet com um treinamento involuntário. "Muitos animais desenvolvem esses comportamentos porque, sem querer, os donos reforçam a atitude dando comida", explica a veterinária Ana Clara Mendes, que atende na região há oito anos. Segundo ela, o ciclo começa quando o tutor cede ao pedido uma vez, mesmo que seja por carinho ou pena. Com o tempo, o animal associa a ação à recompensa e passa a repeti-la com mais intensidade.
Os gatos são mestres nesse tipo de estratégia. Diferente dos cães, que costumam latir ou pular, os felinos usam táticas mais sutis, como esfregar-se nas pernas do dono ou miar de forma insistente. Em Araguaína, a veterinária Carla Souza, do Hospital Veterinário da cidade, conta que já atendeu tutores desesperados com a insistência dos pets. "Um cliente chegou dizendo que o gato dele só comia quando fazia aquele miado agudo. Depois de uma conversa, descobrimos que o dono sempre dava um pedaço de frango quando o animal fazia aquilo", relata. O caso não é isolado: em clínicas de todo o estado, tutores relatam situações semelhantes, especialmente com animais que passaram por mudanças na rotina, como a chegada de um novo membro na família ou a adoção de outro pet.
A rotina agitada dos tocantinenses também contribui para o problema. Em cidades como Gurupi e Porto Nacional, onde a vida noturna é intensa, muitos donos acabam cedendo aos pedidos dos animais tarde da noite, reforçando o comportamento. "As pessoas chegam cansadas do trabalho e, muitas vezes, não têm paciência para ignorar os pedidos. Acabam dando comida só para ter paz", comenta o zootecnista Ricardo Oliveira, que trabalha com comportamento animal em várias cidades do interior.
Os riscos de alimentar pets fora da hora ou com alimentos inadequados são reais. Em Palmas, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) já registrou casos de obesidade em animais por conta de dietas desreguladas. "Além do ganho de peso, alimentos como chocolate, cebola ou alho podem ser tóxicos para cães e gatos", alerta a veterinária Ana Clara. Em Araguaína, o Hospital Veterinário local já atendeu animais com problemas digestivos graves por conta de hábitos alimentares inadequados.
Para quem não quer cair na armadilha do pet treinado, especialistas recomendam algumas medidas simples. A primeira é ignorar completamente os pedidos do animal quando ele estiver fora do horário de refeição. "Se o tutor não der atenção ao comportamento, o pet vai desistir depois de um tempo", afirma a veterinária Carla Souza. Outra dica é estabelecer horários fixos para as refeições e evitar oferecer comida da mesa. Em casos extremos, brinquedos ou petiscos específicos podem ser usados como distração.
A prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, já incluiu orientações sobre comportamento animal em campanhas de posse responsável. "Muitos tutores não sabem que estão treinando os pets sem querer. Nossa intenção é conscientizar para que os animais tenham uma vida mais saudável", diz a coordenadora do setor, Maria Helena Costa. Em Araguaína, a Secretaria de Saúde também promove palestras em bairros sobre os cuidados com animais domésticos, abordando temas como alimentação e comportamento.
O desafio, no entanto, é grande. Em um estado onde a cultura de tratar animais como membros da família é forte, muitos tutores ainda veem os pedidos dos pets como um sinal de afeto, e não como um comportamento aprendido. "É difícil mudar essa mentalidade, mas com informação, aos poucos a gente consegue", avalia o zootecnista Ricardo Oliveira. Enquanto isso, clínicas veterinárias e órgãos públicos seguem trabalhando para orientar a população e evitar problemas de saúde nos animais.
A pergunta que fica é: até que ponto o amor por um pet pode se transformar em um hábito prejudicial? Para tutores como os de Palmas e Araguaína, a resposta pode estar em um simples gesto: resistir ao pedido na próxima vez que o cachorro ou gato olhar com aqueles olhos pidões.