Avião lotado: falta de slots trava expansão de passagens baratas
Aeroportos de São Paulo, Brasília e Rio concentram 70% dos slots, limitando concorrência e preços no setor aéreo 2024

A briga por voos mais baratos esbarra em um obstáculo invisível aos passageiros: os slots. Essas janelas de pouso e decolagem, disputadas como ouro em aeroportos como Guarulhos, Brasília e Galeão, seguem concentradas nas mãos de poucas empresas, travando a entrada de novas companhias de baixo custo no Brasil. Sem espaço para pousar ou decolar, até mesmo gigantes do setor hesitam em expandir rotas ou abrir bases operacionais, mantendo a oferta de assentos limitada e os preços altos.
A concentração não é nova, mas ganha força à medida que o setor tenta se recuperar dos prejuízos da pandemia. Em 2023, os três aeroportos responderam por 70% dos slots disponíveis no país, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A situação é ainda mais crítica em horários de pico, quando as pistas ficam lotadas e as empresas estabelecidas — muitas delas com contratos de longo prazo — mantêm prioridade sobre as novas concorrentes. Para quem voa com frequência, a consequência é clara: menos opções, menos competição e tarifas que não caem como o esperado, mesmo com a volta da demanda.
O problema não afeta só quem viaja a trabalho ou lazer. Companhias que tentam entrar no mercado com modelos de baixo custo, como as que apostam em rotas regionais ou em aviões menores, esbarram na falta de slots para testar novos destinos. Sem poder operar em horários estratégicos, muitas desistem antes mesmo de começar. Em 2024, pelo menos três projetos de novas empresas aéreas foram adiados ou cancelados por esse motivo, segundo relatos de executivos do setor ouvidos pela reportagem. A Anac, por sua vez, tem tentado mediar a distribuição, mas as regras atuais favorecem quem já está no jogo.
A discussão sobre slots não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos e na Europa, a briga por essas janelas também é acirrada, com aeroportos como Heathrow, em Londres, e JFK, em Nova York, operando no limite de sua capacidade. A diferença é que, por lá, há mecanismos de redistribuição mais ágeis, como leilões ou sistemas de rodízio, que permitem a entrada de novos players. Aqui, a burocracia e a resistência das empresas estabelecidas tornam o processo lento e incerto. "A regra atual não incentiva a competição", afirmou um diretor de uma grande companhia aérea, que pediu anonimato para falar sobre o tema. "Quem já tem slots não tem motivo para abrir mão deles, e quem chega novo fica de fora."
Para os passageiros, a conta é simples: menos concorrentes significam preços mais altos. Em 2023, a tarifa média de uma passagem doméstica subiu 12% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). A alta foi puxada, em parte, pela falta de competição em rotas estratégicas, como as que ligam São Paulo ao Nordeste ou ao Sul. Em trechos como esse, a concentração de slots permite que as empresas cobrem valores até 30% acima da média nacional, segundo levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
A Anac já sinalizou que estuda mudanças nas regras, mas até agora não apresentou uma proposta concreta. Uma das alternativas em discussão é a criação de um mercado secundário de slots, onde empresas poderiam alugar ou vender suas janelas para terceiros. Outra possibilidade é a revisão dos contratos de uso dos aeroportos, que hoje garantem prioridade vitalícia a quem chegou primeiro. "Precisamos de um modelo que equilibre a segurança operacional com a entrada de novos competidores", declarou um representante da agência, sem dar prazos para as mudanças.
Enquanto as discussões avançam — ou não —, a pressão sobre as empresas aéreas aumenta. Passageiros insatisfeitos com os preços e governos preocupados com o impacto econômico do setor pressionam por soluções. Mas, no curto prazo, a realidade é dura: quem precisa voar continua pagando mais caro, e quem sonha em voar barato segue esperando por uma brecha no sistema.
A próxima rodada de negociações entre a Anac e as empresas deve acontecer em setembro, quando o tema deve voltar à pauta. Até lá, os aeroportos brasileiros seguirão operando no limite, e os passageiros, torcendo por um milagre: mais concorrência, menos filas e, quem sabe, uma passagem que caiba no bolso.