Pontes interditadas na bacia Araguaia-Tocantins expõem fragilidade das estruturas no Tocantins
Interdições recentes em três pontes na região revelam problemas de manutenção e afetam rotas de transporte e moradores
A sequência de interdições em pontes da bacia Araguaia-Tocantins, que corta cidades como Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, acendeu o alerta sobre o estado das estruturas rodoviárias no Tocantins. Três pontes já foram interditadas em menos de um mês, forçando motoristas a desvios que aumentam o tempo de viagem e os custos logísticos para quem depende dessas rotas diariamente.
A primeira interdição ocorreu na ponte sobre o Rio Tocantins, na TO-080, entre Araguaína e Wanderlândia, interditada no dia 5 de junho por ordem da Agência Tocantinense de Transportes e Obras (Agetop). A estrutura apresentava trincas e afundamentos no asfalto, sinalizando risco iminente de colapso. Poucos dias depois, no dia 12, foi a vez da ponte sobre o Rio Crixás-Açu, na TO-222, entre Gurupi e Aliança do Tocantins, interditada após vistoria identificar desgaste acentuado no concreto e ferragens expostas. A terceira interdição, na ponte sobre o Rio Sono, na TO-480, entre Porto Nacional e Ipueiras, aconteceu no dia 18, com a justificativa de segurança estrutural.
Os desvios impostos pelas interdições não são apenas incômodos passageiros. Em Araguaína, cidade polo do norte do estado, a interdição da TO-080 obrigou caminhoneiros que transportam grãos e insumos agrícolas a fazerem um desvio de mais de 100 quilômetros, passando por Xambioá e Araguatins. O trajeto alternativo, além de mais longo, exige o pagamento de pedágios em rodovias federais, encarecendo o frete. Segundo relatos de motoristas ouvidos pela reportagem, o custo adicional pode chegar a R$ 500 por viagem, dependendo da carga.
Em Gurupi, a interdição da TO-222 afeta diretamente a rotina de produtores rurais que escoam a safra de soja e milho para o Porto de Itaqui, no Maranhão. A ponte interditada é a principal ligação entre a região sul do Tocantins e a BR-153, via crucial para o escoamento da produção agrícola. "Antes, fazia o trajeto em duas horas. Agora, são quatro horas, e ainda tem o risco de perder carga com os buracos nos desvios", contou um caminhoneiro que preferiu não se identificar.
A Agetop, responsável pela fiscalização e manutenção das pontes estaduais, informou que as interdições foram necessárias após laudos técnicos comprovarem a insegurança das estruturas. "As pontes interditadas já haviam sido alvo de vistorias em 2023, mas os reparos não foram realizados a tempo. Agora, com o agravamento das condições, tivemos que interditar para evitar acidentes", afirmou o diretor de Engenharia da Agetop, José Wilson de Oliveira. Ele destacou que a autarquia já protocolou um pedido de recursos junto ao governo estadual para obras emergenciais, mas o processo está em análise.
A situação coloca em xeque não só a segurança dos usuários, mas também a economia local. O Tocantins é o quarto maior produtor de grãos do país, e a malha rodoviária é vital para escoar a safra. Em 2023, o estado exportou mais de 12 milhões de toneladas de soja, milho e arroz, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura. Qualquer atraso ou aumento de custos no transporte afeta diretamente a competitividade dos produtores tocantinenses no mercado nacional.
Moradores de Porto Nacional também sentem o impacto. A ponte interditada sobre o Rio Sono é a única ligação asfaltada entre a cidade e a TO-050, que leva a Palmas. Com a interdição, quem precisa se deslocar para a capital ou para o sul do estado enfrenta um trajeto de terra batida, com trechos esburacados e perigosos, especialmente em dias de chuva. "Já tivemos casos de carros atolados e até um acidente com uma van escolar que fazia a rota diária. Isso é inaceitável", relatou uma moradora, que pediu para não ser identificada.
A Agetop garante que está priorizando as obras emergenciais, mas admite que o ritmo de manutenção não acompanha a demanda. "Temos mais de 50 pontes no estado com algum tipo de problema estrutural. O orçamento é limitado, e muitas vezes precisamos escolher entre obras emergenciais e outras prioridades", explicou Oliveira. Ele citou como exemplo a ponte sobre o Rio Araguaia, na TO-230, entre Araguaína e Xambioá, que também apresenta sinais de desgaste, mas ainda não foi interditada por falta de recursos para reparos imediatos.
Enquanto as soluções não chegam, a população e os empresários do Tocantins seguem reféns de um problema que se arrasta há anos. A situação das pontes na bacia Araguaia-Tocantins não é um caso isolado: em todo o estado, dezenas de estruturas rodoviárias apresentam sinais de envelhecimento prematuro, reflexo da falta de investimentos contínuos em manutenção. Para quem depende dessas vias no dia a dia, a espera por soluções definitivas parece cada vez mais longa.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado da Infraestrutura, que não se manifestou até o fechamento desta edição. A Agetop informou que deve divulgar um cronograma de obras emergenciais nos próximos dias, mas não há previsão de quando as pontes interditadas serão reabertas.