Debate sobre saúde no Tocantins foca em hospitais e esquece prevenção
Primeiro debate entre candidatos a governador destacou obras, mas deixou lacunas em eficiência e rede SUS 21/08/2024 Palmas

O primeiro debate entre os candidatos ao governo do Tocantins, realizado na noite de ontem em Palmas, mostrou que a discussão sobre saúde pública no estado ainda gira em torno de promessas de novas unidades hospitalares. Enquanto os postulantes à cadeira de governador apresentaram propostas para ampliar estruturas físicas, pouco se falou sobre como melhorar a eficiência do sistema, valorizar os profissionais da rede complementar do SUS ou investir em prevenção.
A noite de debates, transmitida por emissoras de TV locais, revelou um cenário onde o foco das falas esteve em números de leitos, inaugurações de postos e expansão de serviços. No entanto, quando o assunto foi a gestão cotidiana dos hospitais já existentes ou a integração entre unidades públicas e privadas, as respostas ficaram vagas. Um dos candidatos chegou a mencionar a construção de um novo hospital em uma cidade do interior, mas não detalhou como seria financiado ou qual a prioridade na fila de obras do governo estadual. Outro defendeu a ampliação de um serviço específico, sem explicar se haveria recursos para mantê-lo funcionando sem interrupções, como ocorre hoje com programas que dependem de repasses federais.
Para quem depende do Sistema Único de Saúde no Tocantins, a ausência de propostas concretas sobre prevenção e eficiência preocupa. Em cidades como Gurupi, Porto Nacional e Araguaína, moradores convivem diariamente com filas em unidades básicas, falta de medicamentos e demoras para consultas especializadas. A rede complementar, que poderia aliviar a pressão sobre os hospitais públicos, também não teve espaço no debate. Enquanto isso, obras prometidas em gestões anteriores seguem paralisadas ou com cronogramas atrasados, como o hospital regional de Miracema, que há anos aguarda conclusão.
O debate deixou claro que, mesmo com a proximidade das eleições, a saúde no Tocantins ainda é tratada como um tema de promessas eleitorais, não de planejamento de longo prazo. A população, que já enfrenta filas e serviços sobrecarregados, segue sem respostas sobre como será a gestão da saúde nos próximos quatro anos. Enquanto os candidatos falavam em números de leitos, quem realmente precisa de atendimento rápido e eficiente segue esperando por mudanças que não chegam.
Os hospitais estaduais, como o Regional de Araguaína e o Materno Infantil de Palmas, seguem como principais referências, mas enfrentam problemas recorrentes. No Hospital Regional de Araguaína, por exemplo, a superlotação é frequente, e pacientes relatam demoras de meses para consultas especializadas. Em Palmas, o Hospital Geral de Palmas (HGP) tem enfrentado falta de profissionais em setores críticos, como UTI neonatal, o que obriga a transferência de pacientes para outras regiões. Esses problemas não foram mencionados no debate, mas são realidade para milhares de tocantinenses.
A rede complementar do SUS, que inclui clínicas e laboratórios conveniados, também foi ignorada nas discussões. Em cidades como Gurupi e Porto Nacional, esses serviços são essenciais para reduzir a fila de espera por exames e consultas, mas dependem de contratos que muitas vezes não são renovados a tempo. Sem uma política clara de integração entre público e privado, a população segue refém de um sistema que não consegue atender à demanda.
O que se viu ontem foi um debate onde a saúde foi reduzida a promessas de concreto e aço, enquanto a gestão eficiente e a prevenção foram deixadas de lado. Para quem vive no Tocantins, a dúvida permanece: quando os candidatos vão falar sobre o que realmente afeta o dia a dia dos hospitais e das famílias que dependem do SUS?
Enquanto isso, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) segue sem um plano público detalhado para os próximos meses. A pasta, que já enfrentou críticas por falta de transparência em repasses a municípios, não apresentou durante o debate nenhuma medida concreta para melhorar a situação. A população, por sua vez, segue na expectativa de que as eleições tragam não apenas obras, mas também soluções para um sistema que há anos padece com a falta de planejamento.
O próximo debate entre os candidatos está marcado para a próxima semana, em Araguaína. Resta saber se, desta vez, a saúde será discutida além das paredes dos hospitais e das promessas de inaugurações.