Teatro infantil usa Chapeuzinho para alertar sobre violência em Palmas
Projeto leva encenação adaptada a escolas e creches da capital tocantinense

A encenação de "Chapeuzinho Vermelho e o lobo que falava baixinho" chega às escolas e creches de Palmas com uma mensagem clara: proteger as crianças é tarefa de todos. A peça, que estreou recentemente na capital, propõe uma releitura do clássico infantil para discutir temas como respeito, cuidado e a importância de ouvir os pequenos. A iniciativa, que já passou por bairros como Taquaralto e Plano Diretor Sul, deve percorrer mais unidades até o final do ano.
A adaptação da história tradicional ganha novos contornos ao transformar o lobo em um personagem que, em vez de ameaçar, dialoga com a menina. A mudança não é apenas estética: a peça foi pensada para ser um convite à reflexão sobre como a sociedade lida com situações de risco. Em cenas curtas e acessíveis, a encenação mostra como crianças podem ser ouvidas quando relatam experiências desconfortáveis, um recado especialmente relevante em um estado onde os índices de violência contra menores ainda preocupam.
O projeto é uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Palmas e uma organização não governamental especializada em direitos da criança. Segundo a coordenadora do programa, a arte serve como ferramenta para abordar assuntos delicados sem assustar os pequenos. "As crianças aprendem melhor quando o conteúdo é apresentado de forma lúdica", explica ela. A peça já foi apresentada em cinco unidades educacionais da capital, com previsão de alcançar mais dez até dezembro.
Para as famílias tocantinenses, a iniciativa chega em um momento em que a rede de proteção à infância no estado passa por ajustes. Em 2023, o Tocantins registrou 1.250 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo dados da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA). O número, embora represente uma queda de 8% em relação ao ano anterior, ainda coloca o estado entre os dez com maior incidência no país. Em Palmas, a Guarda Municipal mantém rondas diárias em áreas próximas a escolas e creches, mas a prefeitura reconhece que a prevenção exige mais do que fiscalização.
A peça não é a primeira iniciativa do tipo na capital. Em 2022, o projeto "Fala Criança", também voltado à prevenção de abusos, percorreu 15 bairros com palestras e oficinas. A diferença agora é o uso do teatro como linguagem principal. "As crianças se identificam com os personagens e, aos poucos, passam a relatar situações que antes não compartilhavam", conta uma professora da Escola Municipal Darcy Marinho, no Taquaralto, onde a peça foi apresentada na semana passada. A unidade atende 280 alunos, a maioria filhos de trabalhadores que dependem de serviços públicos como transporte escolar e merenda.
Os responsáveis pelo projeto destacam que a abordagem evita cenas de violência explícita, mas não esconde a gravidade do tema. Em uma das cenas, o lobo pergunta à Chapeuzinho: "Por que você não contou para ninguém?" — uma pergunta que, segundo os organizadores, ecoa no cotidiano de muitas famílias tocantinenses. "Muitas crianças só se sentem seguras para falar quando percebem que o adulto está disposto a ouvir", afirma a psicóloga da equipe. A peça termina com uma canção que reforça a mensagem: "Se algo te incomoda, conte para quem te ama".
A Secretaria de Educação de Palmas já incluiu a encenação no calendário de atividades para 2025. A proposta é expandir o projeto para os 16 Distritos Escolares da capital, mas a falta de recursos para transporte e montagem de cenários pode atrasar os planos. Enquanto isso, a equipe busca parcerias com empresas locais para viabilizar as próximas apresentações. "O teatro é só o começo", diz a coordenadora. "Depois, a gente trabalha com os professores para que a discussão continue em sala de aula".
Para os pais, a iniciativa chega em boa hora. Em um estado onde a rede de saúde enfrenta filas de espera para atendimento psicológico infantil, qualquer ferramenta que ajude a quebrar o silêncio é bem-vinda. "Meu filho voltou da escola perguntando se eu já tinha ouvido a história do lobo que falava baixinho", conta uma mãe moradora do Jardim Aureny III. "Foi a primeira vez que ele mencionou um assunto assim em casa".
A peça segue em cartaz até novembro, com apresentações gratuitas nas unidades que confirmarem participação. As escolas interessadas devem entrar em contato com a Secretaria de Educação pelo telefone 3218-1800. Enquanto isso, a discussão sobre como proteger as crianças no Tocantins ganha um novo personagem: o lobo que, desta vez, não assusta, mas ensina.