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Carvoarias no TO: salário de R$ 0,16 por saco expõe realidade do setor

Jéssika Borges, de 33 anos, mostra rotina de trabalho em carvoaria no interior do Tocantins e viraliza nas redes sociais

📝 Redação CCN01 de julho de 2026 às 10:06👁 2 leituras
Carvoarias no TO: salário de R$ 0,16 por saco expõe realidade do setor

Um vídeo simples, gravado com o celular, mostrou ao Brasil a dura realidade de quem trabalha com carvão no Tocantins. Jéssika Borges, moradora de uma cidade no interior do estado, filmou sua rotina em uma carvoaria e revelou que recebe apenas R$ 0,16 por saco de carvão ensacado. O conteúdo, postado nas redes sociais, já ultrapassou milhões de visualizações e colocou em pauta as condições de trabalho no setor, que movimenta a economia de várias regiões tocantinenses.

Jéssika, de 33 anos, gravou o vídeo enquanto trabalhava em uma carvoaria no município de Porto Nacional, a cerca de 60 quilômetros de Palmas. Na gravação, ela mostra o processo de ensacar o carvão produzido e explica que, por cada saco de 20 quilos, recebe menos de vinte centavos. A jovem, que trabalha no setor há anos, contou que a remuneração é ainda menor quando se considera o desgaste físico e a exposição a altas temperaturas e poeira. "É um trabalho pesado, que exige muito do corpo, e ainda assim a gente recebe tão pouco", desabafou em entrevista à imprensa local.

O setor de carvão vegetal é tradicional em várias cidades do Tocantins, especialmente na região sudeste, onde a atividade está ligada à produção de aço e à geração de renda para famílias que não têm outras opções de emprego. Em Porto Nacional, por exemplo, a atividade é uma das poucas alternativas para quem vive na zona rural. No entanto, a baixa remuneração e as condições precárias de trabalho têm sido alvo de críticas há anos. A Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social do Tocantins (Setas) já realizou fiscalizações em carvoarias do estado, mas a fiscalização esbarra na dificuldade de acesso a propriedades rurais e na falta de denúncias formais.

A repercussão do vídeo de Jéssika trouxe à tona um debate que muitas vezes passa despercebido: a exploração no campo. Em cidades como Gurupi, Dianópolis e Paranã, a atividade de carvoaria é comum, mas poucas vezes se fala sobre os trabalhadores que sustentam o setor. A prefeitura de Porto Nacional, por meio da Secretaria de Agricultura, informou que não tem controle direto sobre as carvoarias, mas reconhece a importância da atividade para a economia local. "É uma realidade que precisa ser discutida, mas não temos como fiscalizar o que não é registrado", afirmou um técnico da pasta.

Para quem vive no interior do Tocantins, a notícia não é novidade. Muitos trabalhadores do setor relatam que a remuneração é irregular e que os direitos trabalhistas são ignorados. Em alguns casos, os empregadores sequer emitem recibos ou carteiras assinadas. A situação é ainda mais crítica em períodos de seca, quando a produção de carvão aumenta para atender à demanda das siderúrgicas, mas os preços caem e os salários não acompanham.

A Defensoria Pública do Tocantins já atuou em casos semelhantes, mas a falta de fiscalização e a cultura de informalidade no campo dificultam a regularização. Em 2022, a instituição firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com uma carvoaria em Araguaína para regularizar a situação de trabalhadores, mas o acordo ainda não foi totalmente cumprido. "A gente sabe que tem irregularidades, mas a fiscalização é lenta e não chega a todos os lugares", disse um defensor público que preferiu não ser identificado.

O caso de Jéssika também chamou a atenção para a saúde dos trabalhadores. Médicos do Hospital Regional de Porto Nacional já atenderam casos de problemas respiratórios e queimaduras entre os funcionários de carvoarias. "A poeira do carvão e o calor intenso causam danos sérios à saúde, mas muitos não têm acesso a equipamentos de proteção", alertou uma enfermeira do hospital.

A prefeitura de Porto Nacional informou que está avaliando a possibilidade de criar um programa de apoio aos trabalhadores do setor, mas ainda não há previsão de quando isso pode acontecer. Enquanto isso, Jéssika e outros colegas continuam a trabalhar nas mesmas condições, na esperança de que a visibilidade do vídeo possa trazer mudanças.

A repercussão nas redes sociais já levou a uma mobilização de ativistas e sindicatos, que pedem a fiscalização do Ministério do Trabalho e a aplicação de multas às carvoarias que não cumprirem a legislação. No entanto, a burocracia e a falta de recursos para fiscalização ainda são obstáculos. "A gente precisa de ações concretas, não só de discussões", cobrou um representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto Nacional.

O caso de Jéssika Borges é mais um exemplo de como a realidade do interior do Tocantins muitas vezes fica invisível para quem vive nas grandes cidades. Enquanto Palmas debate obras e políticas públicas, milhares de trabalhadores rurais lutam por direitos básicos em setores que sustentam a economia do estado. A pergunta que fica é: até quando essa situação vai se perpetuar?