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Carvoaria no TO expõe salário de R$ 0,16 por saco

Jéssika Borges, de 33 anos, mostra rotina em vídeo viral e reacende debate sobre direitos no setor

📝 Redação CCN24 de junho de 2026 às 10:02👁 5 leituras
Carvoaria no TO expõe salário de R$ 0,16 por saco

Uma jovem de 33 anos, moradora de um município do interior do Tocantins, virou símbolo de uma discussão que há anos ronda as carvoarias do estado: a remuneração irrisória por saco de carvão produzido. Jéssika Borges, natural de uma cidade a cerca de 200 km de Palmas, postou um vídeo nas redes sociais mostrando a própria rotina de trabalho, que inclui ensacar carvão em sacos de 20 kg. No registro, ela detalha receber R$ 0,16 por unidade produzida, valor que, multiplicado pela quantidade diária, não chega a cobrir nem o básico para uma refeição decente. O vídeo, que já ultrapassou a marca de milhões de visualizações, jogou luz sobre um problema que muitos conhecem, mas poucos ousam expor.

Jéssika não é a primeira a denunciar as condições de trabalho nas carvoarias tocantinenses, mas sua fala ganhou proporções inéditas. Em menos de uma semana, o vídeo foi compartilhado por centenas de milhares de pessoas, incluindo trabalhadores rurais, sindicalistas e até políticos locais. A repercussão obrigou o poder público a se posicionar, ainda que de forma tímida. A Secretaria do Trabalho e Assistência Social do Tocantins, por exemplo, afirmou que fiscaliza o setor periodicamente, mas não detalhou ações específicas após o caso viralizar. Enquanto isso, moradores de cidades como Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, onde a atividade é comum, passaram a questionar como ainda é possível que, em pleno século XXI, trabalhadores sejam remunerados por valores que beiram a exploração.

O que mais chama a atenção na história de Jéssika é a rotina que ela descreve. Segundo a jovem, a jornada começa antes do sol nascer e só termina quando a última saca é ensacada. Ela conta que, em dias bons, consegue produzir até 50 sacos, o que lhe renderia R$ 8 ao final do expediente. Em dias ruins, quando o carvão não seca direito ou chove, a produção cai pela metade. "Às vezes, a gente trabalha o dia todo e não consegue nem comprar um pão", desabafou em entrevista rápida à reportagem. O valor, segundo ela, não cobre sequer o transporte até a cidade mais próxima para comprar mantimentos.

A situação não é exclusividade de Jéssika. Em municípios como Miracema do Tocantins e Paraíso do Tocantins, onde a produção de carvão é uma das principais fontes de renda, famílias inteiras dependem dessa atividade. Um levantamento informal feito por sindicatos da região aponta que, em média, um trabalhador consegue produzir entre 30 e 60 sacos por dia, dependendo da época do ano. No entanto, mesmo com a alta demanda — o carvão é usado em padarias, churrascarias e até em residências —, os salários permanecem no mesmo patamar há anos. "O preço do carvão subiu, mas o que a gente recebe não mudou. Eles dizem que é por causa da concorrência, mas a gente sabe que é exploração", contou um produtor de carvão de Colinas do Tocantins, que preferiu não se identificar.

A legislação trabalhista brasileira é clara: o pagamento por produção deve garantir ao trabalhador uma remuneração equivalente ao salário mínimo, quando calculado pela média de horas trabalhadas. No entanto, nas carvoarias tocantinenses, o que se vê é o oposto. A fiscalização, quando ocorre, é pontual e não costuma resultar em mudanças estruturais. Segundo a Delegacia Regional do Trabalho no Tocantins, nos últimos dois anos, foram registradas 12 denúncias relacionadas a trabalho análogo à escravidão em carvoarias, mas apenas três resultaram em autuações. "As fiscalizações são importantes, mas a gente precisa de políticas públicas que vão além do controle. É preciso oferecer alternativas de renda para essas famílias", afirmou um servidor da pasta, que pediu anonimato.

Para Jéssika, o vídeo foi uma forma de chamar atenção não só para o seu caso, mas para a situação de centenas de pessoas que vivem na mesma realidade. "Eu não queria ser famosa, mas se isso ajudar a mudar alguma coisa, já valeu", disse. Enquanto o debate ganha força nas redes, moradores de cidades como Araguatins e Wanderlândia, onde a atividade é intensa, aguardam por ações concretas. A expectativa é que, com a pressão popular, o governo estadual e os municípios envolvidos sejam obrigados a agir. Afinal, como bem lembrou Jéssika no vídeo, "ninguém escolhe viver assim".

A reportagem tentou contato com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Faet), mas até o fechamento desta edição não obteve resposta. O Sindicato dos Produtores de Carvão Vegetal do Tocantins também não se manifestou. Enquanto isso, Jéssika segue produzindo carvão, mas agora com a esperança de que sua história não seja apenas mais uma entre tantas outras que caem no esquecimento.