Carvoaria no TO expõe salário de R$ 0,16 por saco
Jéssika Borges, de 33 anos, mostra rotina em vídeo viral e reacende debate sobre direitos no setor

Uma jovem de 33 anos, moradora de um município do interior do Tocantins, virou símbolo de uma discussão que há anos ronda as carvoarias do estado: a remuneração irrisória por saco de carvão produzido. Jéssika Borges, natural de uma cidade a cerca de 200 km de Palmas, postou um vídeo nas redes sociais mostrando a própria rotina de trabalho, que inclui ensacar carvão em sacos de 20 kg. No registro, ela detalha receber R$ 0,16 por unidade produzida, valor que, multiplicado pela quantidade diária, não chega a cobrir nem o básico para uma refeição decente. O vídeo, que já ultrapassou a marca de milhões de visualizações, jogou luz sobre um problema que muitos conhecem, mas poucos ousam expor.
Jéssika não é a primeira a denunciar as condições de trabalho nas carvoarias tocantinenses, mas sua fala ganhou proporções inéditas. Em menos de uma semana, o vídeo foi compartilhado por centenas de milhares de pessoas, incluindo trabalhadores rurais, sindicalistas e até políticos locais. A repercussão obrigou o poder público a se posicionar, ainda que de forma tímida. A Secretaria do Trabalho e Assistência Social do Tocantins, por exemplo, afirmou que fiscaliza o setor periodicamente, mas não detalhou ações específicas após o caso viralizar. Enquanto isso, moradores de cidades como Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, onde a atividade é comum, passaram a questionar como ainda é possível que, em pleno século XXI, trabalhadores sejam remunerados por valores que beiram a exploração.
O que mais chama a atenção na história de Jéssika é a rotina que ela descreve. Segundo a jovem, a jornada começa antes do sol nascer e só termina quando a última saca é ensacada. Ela conta que, em dias bons, consegue produzir até 50 sacos, o que lhe renderia R$ 8 ao final do expediente. Em dias ruins, quando o carvão não seca direito ou chove, a produção cai pela metade. "Às vezes, a gente trabalha o dia todo e não consegue nem comprar um pão", desabafou em entrevista rápida à reportagem. O valor, segundo ela, não cobre sequer o transporte até a cidade mais próxima para comprar mantimentos.
A situação não é exclusividade de Jéssika. Em municípios como Miracema do Tocantins e Paraíso do Tocantins, onde a produção de carvão é uma das principais fontes de renda, famílias inteiras dependem dessa atividade. Um levantamento informal feito por sindicatos da região aponta que, em média, um trabalhador consegue produzir entre 30 e 60 sacos por dia, dependendo da época do ano. No entanto, mesmo com a alta demanda — o carvão é usado em padarias, churrascarias e até em residências —, os salários permanecem no mesmo patamar há anos. "O preço do carvão subiu, mas o que a gente recebe não mudou. Eles dizem que é por causa da concorrência, mas a gente sabe que é exploração", contou um produtor de carvão de Colinas do Tocantins, que preferiu não se identificar.
A legislação trabalhista brasileira é clara: o pagamento por produção deve garantir ao trabalhador uma remuneração equivalente ao salário mínimo, quando calculado pela média de horas trabalhadas. No entanto, nas carvoarias tocantinenses, o que se vê é o oposto. A fiscalização, quando ocorre, é pontual e não costuma resultar em mudanças estruturais. Segundo a Delegacia Regional do Trabalho no Tocantins, nos últimos dois anos, foram registradas 12 denúncias relacionadas a trabalho análogo à escravidão em carvoarias, mas apenas três resultaram em autuações. "As fiscalizações são importantes, mas a gente precisa de políticas públicas que vão além do controle. É preciso oferecer alternativas de renda para essas famílias", afirmou um servidor da pasta, que pediu anonimato.
Para Jéssika, o vídeo foi uma forma de chamar atenção não só para o seu caso, mas para a situação de centenas de pessoas que vivem na mesma realidade. "Eu não queria ser famosa, mas se isso ajudar a mudar alguma coisa, já valeu", disse. Enquanto o debate ganha força nas redes, moradores de cidades como Araguatins e Wanderlândia, onde a atividade é intensa, aguardam por ações concretas. A expectativa é que, com a pressão popular, o governo estadual e os municípios envolvidos sejam obrigados a agir. Afinal, como bem lembrou Jéssika no vídeo, "ninguém escolhe viver assim".
A reportagem tentou contato com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Faet), mas até o fechamento desta edição não obteve resposta. O Sindicato dos Produtores de Carvão Vegetal do Tocantins também não se manifestou. Enquanto isso, Jéssika segue produzindo carvão, mas agora com a esperança de que sua história não seja apenas mais uma entre tantas outras que caem no esquecimento.