Bebida e direção: quando o erro vira tragédia
Tocantins registra casos de motoristas alcoolizados que não enxergam o perigo de suas ações Palmas-TO, 2024

No último fim de semana, um acidente na TO-050, entre Gurupi e Aliança do Tocantins, deixou duas famílias em luto. O motorista, que havia ingerido bebidas alcoólicas, perdeu o controle do veículo e colidiu frontalmente com outro carro. A cena, comum demais nas estradas do estado, expõe uma realidade que muitos ainda se recusam a encarar: quando a imprudência mata, não se trata de um acidente, mas de uma escolha.
O caso não é isolado. Em Palmas, no início do mês, um homem foi preso em flagrante após causar um engavetamento na Avenida JK, próximo ao Shopping Iguatemi, com taxa de álcool no sangue três vezes acima do limite permitido. No mesmo período, em Araguaína, uma blitz da Polícia Militar flagrou 12 motoristas dirigindo alcoolizados em uma única noite. Os números, embora alarmantes, não surpreendem quem acompanha os boletins de ocorrência nas delegacias regionais. Segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-TO), só em 2023, foram registrados 412 acidentes com vítimas fatais no Tocantins, e em 38% deles havia indícios de embriaguez.
A tolerância social com quem bebe e dirige ainda persiste, como se o álcool fosse um mero detalhe no ato de guiar. Em bares e restaurantes de cidades como Porto Nacional, Miracema do Tocantins e Dianópolis, é comum ver placas com dizeres como "Dirigir alcoolizado é crime", mas a fiscalização ainda é esporádica. Em Palmas, a Companhia de Trânsito de Palmas (CTP) realiza blitze aleatórias, mas a sensação de impunidade ainda é grande. "As pessoas acham que, se não forem pegas, está tudo bem. Não entendem que, a cada vez que pegam o volante depois de beber, estão brincando com a vida de outras pessoas", alerta o delegado da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Palmas, Marco Aurélio Rodrigues.
O Código de Trânsito Brasileiro é claro: dirigir sob efeito de álcool é infração gravíssima, com multa de R$ 2.934,70, suspensão da CNH e até prisão. Mesmo assim, a cultura do "só mais um copo" ainda predomina em festas, comemorações e até em eventos familiares. Em Araguaína, por exemplo, a prefeitura recentemente ampliou o horário de funcionamento dos bares, mas não criou campanhas efetivas para conscientizar sobre os riscos. "A gente vê de tudo: motoristas que acham que uma lata de cerveja não afeta, outros que usam o argumento de que ‘são bons de direção’. A realidade é que o álcool afeta a coordenação motora, o tempo de reação e a capacidade de julgamento", explica a coordenadora do Núcleo de Educação para o Trânsito da SSP-TO, Luciana Carvalho.
Para quem vive no Tocantins, a questão não é apenas estatística. Em cidades como Gurupi, onde o trânsito é intenso devido ao fluxo de caminhões, os riscos são ainda maiores. No ano passado, um acidente envolvendo um motorista alcoolizado na BR-153 deixou três pessoas feridas e fechou a pista por horas, atrapalhando o escoamento da produção agrícola da região. "Aqui, a gente depende muito das estradas. Quando tem um acidente por causa de bebida, afeta não só as vítimas, mas toda a comunidade", comenta o presidente da Associação dos Transportadores de Cargas de Gurupi, José Carlos Silva.
A solução, segundo especialistas, passa por três frentes: fiscalização mais rigorosa, campanhas de conscientização e punição exemplar. Em Palmas, a CTP anunciou que vai intensificar as blitze nos finais de semana, especialmente em áreas com maior concentração de bares, como a Avenida Teotônio Segurado e a Rua 02, no Centro. Já a SSP-TO estuda a implantação de etilômetros portáteis em postos policiais, para agilizar os flagrantes. "Não adianta só multar. A gente precisa mostrar que dirigir alcoolizado não é um deslize, é um crime", reforça o delegado Rodrigues.
Enquanto as medidas não saem do papel, as famílias das vítimas continuam a pagar o preço. Em Aliança do Tocantins, a mãe de uma das vítimas do acidente na TO-050 ainda não conseguiu entender como um simples trajeto para casa pode ter se transformado em uma tragédia. "Ele saiu do bar, disse que estava bem. Ninguém imaginava que ele não chegaria vivo", desabafa. A história, infelizmente, se repete em cada cidade do Tocantins. E enquanto a sociedade não encarar a bebida e a direção como uma combinação letal, os números continuarão a subir.
A reportagem tentou contato com a Secretaria Municipal de Trânsito de Palmas e a Polícia Rodoviária Federal para comentar as medidas em andamento, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.