Satélites atrapalham observações do céu noturno
Astrônomos relatam interferência crescente de equipamentos em órbita durante pesquisas astronômicas

Astrônomos ao redor do mundo enfrentam um problema crescente: satélites artificiais estão prejudicando a qualidade das observações do céu noturno. Cada vez que um desses equipamentos cruza o campo de visão de um telescópio, ele deixa um rastro luminoso que distorce imagens e dados coletados. O alerta vem de um estudo recente publicado na revista *Astronomy & Astrophysics*, assinado pelo pesquisador Olivier Hainaut, do Observatório Europeu do Sul (ESO).
O fenômeno não é novo, mas se agravou nos últimos anos com o aumento do número de satélites em órbita. Empresas como SpaceX, OneWeb e Amazon estão lançando milhares de equipamentos para viabilizar internet via satélite, redes de comunicação e outras tecnologias. Só a SpaceX já tem mais de 5 mil satélites Starlink em operação, segundo dados da empresa. Cada um desses objetos, ao refletir a luz solar, cria uma faixa brilhante no céu que pode durar minutos ou até horas, dependendo da posição do telescópio e da altitude do satélite.
O problema afeta especialmente observatórios que dependem de exposições longas para capturar imagens de galáxias distantes ou estrelas fracas. Um único satélite pode arruinar horas de trabalho, forçando os pesquisadores a descartar dados ou repetir observações. Hainaut, que há décadas estuda objetos do Sistema Solar, conta que já teve de interromper coletas por causa desses rastros. "Antes, era raro ver um satélite durante uma noite de observação. Agora, é quase impossível não registrar pelo menos um", afirmou.
A interferência não se limita a telescópios ópticos. Radiotelescópios, que captam ondas de rádio emitidas por corpos celestes, também sofrem com sinais de satélites que operam em frequências próximas. Um estudo da União Astronômica Internacional (IAU) estimou que, até 2030, o número de satélites ativos pode ultrapassar 100 mil. A poluição luminosa gerada por eles já é comparada à das grandes cidades, onde a iluminação artificial ofusca as estrelas.
Os astrônomos não pedem o fim dos satélites, mas cobram regulamentações mais rígidas. Algumas empresas já testam soluções, como revestimentos anti-reflexo ou ajustes na órbita para reduzir o brilho. A SpaceX, por exemplo, lançou satélites com visores escuros para diminuir a reflexão. No entanto, os resultados ainda são limitados. "Mesmo com essas tentativas, a quantidade de satélites é tão grande que a interferência continua", disse Hainaut.
A comunidade científica debate há anos como equilibrar o avanço tecnológico com a preservação da escuridão do céu. Em 2023, a IAU criou um grupo de trabalho para avaliar o impacto dos satélites e propor normas internacionais. Enquanto isso, observatórios buscam alternativas, como softwares que editam automaticamente as imagens para remover os rastros. Mas a solução definitiva depende de colaboração entre governos, empresas e pesquisadores.
O futuro das observações astronômicas está em jogo. Se nada for feito, a próxima geração de telescópios — como o Extremely Large Telescope (ELT), que deve entrar em operação em 2027 — pode enfrentar dificuldades ainda maiores. A perda de dados não afeta apenas a ciência básica, mas também aplicações práticas, como o monitoramento de asteroides que representam risco à Terra.
Enquanto as discussões avançam, astrônomos seguem em alerta. A cada lançamento de satélites, o céu noturno se torna um pouco mais poluído — e o trabalho de décadas, mais difícil de ser preservado.