Filme sobre Bolsonaro foi produzido em casa nos EUA
Empresa responsável por 'Dark Horse' operava em subúrbio de Los Angeles segundo profissionais do cinema BBC

A produção do documentário "Dark Horse", que aborda a trajetória política de Jair Bolsonaro, chamou atenção por um detalhe incomum: a empresa por trás do longa-metragem funcionava em uma casa no subúrbio de Los Angeles, nos Estados Unidos. Segundo relatos de profissionais da indústria cinematográfica ouvidos pela BBC News Brasil, a estrutura da produtora Michael Davis Media — responsável pelo filme — destoa do padrão habitual de empresas do ramo, que costumam operar em escritórios comerciais ou estúdios dedicados.
A revelação veio à tona após uma análise mais detalhada da produção, que incluiu depoimentos de pessoas que trabalharam no projeto. A escolha de um endereço residencial para sediar uma empresa de cinema não é ilegal, mas é considerada atípica por quem conhece o mercado. "É estranho uma produtora de documentário desse porte funcionar em uma casa. Normalmente, essas empresas têm estruturas mais formais, com salas de edição, equipamentos profissionais e espaço para equipe", afirmou um profissional do setor que pediu anonimato. A Michael Davis Media, por sua vez, não comentou publicamente sobre a estrutura física da empresa antes das críticas.
O documentário "Dark Horse" ganhou destaque ao explorar os bastidores da carreira política de Bolsonaro, desde sua chegada ao Exército até a presidência do Brasil. Lançado em 2023, o filme foi produzido em um momento de polarização política no Brasil e no exterior, o que aumentou o interesse do público. Nos EUA, onde foi parcialmente produzido, o longa foi exibido em festivais e chamou atenção por sua abordagem crítica ao ex-presidente brasileiro. A escolha de uma produtora com sede em uma residência, no entanto, levantou questionamentos sobre a seriedade do projeto.
Michael Davis, produtor do filme, rebateu as críticas. Em entrevista à BBC, ele afirmou que a estrutura da empresa não afeta a qualidade da produção. "Trabalhamos com profissionais experientes e equipamentos de ponta, mesmo em um espaço adaptado. O importante é o resultado final", declarou. Davis também destacou que a Michael Davis Media já produziu outros documentários de sucesso, o que, segundo ele, comprova a capacidade da equipe. No entanto, os profissionais ouvidos pela reportagem mantiveram ressalvas sobre a viabilidade de longo prazo de um modelo como esse, especialmente para produções de maior porte.
Para o público tocantinense, a notícia pode soar distante, mas ela toca em um ponto sensível: a credibilidade das produções culturais que abordam figuras políticas. Em um estado como o Tocantins, onde o debate sobre representatividade e mídia regional é constante, a discussão sobre como são feitas as produções que chegam ao grande público ganha relevância. Se um documentário internacional sobre um ex-presidente brasileiro pode gerar polêmicas por detalhes de sua produção, o que dizer de obras locais que tratam de temas igualmente delicados?
A polêmica em torno da Michael Davis Media também reacende o debate sobre a transparência nas produções cinematográficas. Nos últimos anos, o mercado de documentários cresceu no Brasil, com obras sendo financiadas por plataformas globais e distribuídas internacionalmente. No entanto, a falta de padronização na estrutura das produtoras pode gerar desconfiança, especialmente quando o tema é político. Em um cenário onde a confiança na mídia é cada vez mais questionada, até mesmo detalhes como o endereço de uma empresa podem se tornar assunto de discussão.
A Michael Davis Media não divulgou dados sobre seu faturamento ou número de funcionários, mas a polêmica levanta uma pergunta: como garantir que produções de impacto sejam feitas com a seriedade que o público merece? Enquanto o documentário "Dark Horse" segue em circulação, a discussão sobre os bastidores da indústria cinematográfica ganha novos contornos, mostrando que, por trás das telas, há muito mais do que câmeras e roteiros.
O caso também serve de alerta para quem acompanha o mercado de cinema no Brasil. Com a crescente produção de documentários e séries sobre política nacional, a transparência na origem das obras pode se tornar um diferencial competitivo. Produtoras que optam por estruturas mais formais, por exemplo, podem conquistar mais credibilidade junto a investidores e plateias. Enquanto isso, a Michael Davis Media segue na berlinda, com sua reputação em jogo a cada exibição de "Dark Horse".