Gêmeos na boiada: pecuária dobra eficiência com técnica de bezerros duplos
Técnica de produção de bezerros gemelares ganha espaço no Tocantins e promete revolução na pecuária nacional 2024

A pecuária brasileira dá um passo além do tradicional com a adoção de uma técnica que, há décadas, parecia privilégio da natureza: a produção de bezerros gemelares. Em fazendas do Tocantins e de outros estados, criadores apostam em métodos científicos para aumentar a taxa de nascimentos de gêmeos, transformando o que antes era sorte em resultado previsível. A novidade não é brincadeira: em propriedades bem manejadas, a técnica pode dobrar a eficiência reprodutiva do rebanho, reduzindo custos e acelerando o ciclo de produção.
A história começa nos bastidores das fazendas de corte e leite, onde a busca por maior produtividade esbarrava em um limite natural: uma vaca só gera um bezerro por gestação. Até que a ciência entrou em cena. Técnicas como a superovulação, transferência de embriões e até a manipulação hormonal passaram a ser usadas para induzir gestações gemelares, sem comprometer a saúde da matriz. No Tocantins, criadores relatam resultados animadores. Em uma propriedade de Gurupi, por exemplo, a taxa de nascimentos de gêmeos saltou de 3% para 18% após a implementação do protocolo, segundo dados internos da fazenda. O segredo? Um manejo rigoroso aliado a profissionais especializados em reprodução animal.
Mas não é só de milagre que vive a técnica. Os desafios são reais e exigem investimento. O custo de uma gestação gemelar pode ser até 40% maior que o de uma tradicional, devido à necessidade de acompanhamento veterinário constante e à possibilidade de partos prematuros. Além disso, o manejo pós-nascimento requer atenção redobrada: bezerros gêmeos tendem a nascer menores e mais frágeis, exigindo suplementação extra e cuidados intensivos nos primeiros meses. "Não adianta querer aplicar a técnica sem estrutura", alerta o zootecnista Marcos Oliveira, que atua na região de Palmas. "É preciso ter equipe treinada, instalações adequadas e, claro, um planejamento financeiro sólido."
Os números mostram que, quando bem executada, a técnica compensa. Em fazendas de leite no Sul do país, onde a produção de gemelares já é mais comum, o ganho por matriz pode chegar a R$ 2 mil anuais, considerando a venda de dois bezerros em vez de um. No Tocantins, onde a pecuária de corte domina, a lógica é semelhante: mais bezerros por ano significam mais animais para engorda e, consequentemente, maior faturamento. "Aqui, a gente não está brincando de adivinhar. A gente está calculando lucro", diz João Silva, proprietário de uma fazenda em Porto Nacional. Ele conta que, após dois anos usando a técnica, reduziu o intervalo entre partos de 14 para 12 meses, um ganho considerável para o setor.
A tecnologia por trás dos gemelares não é nova, mas sua popularização no Brasil ainda engatinha. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa a técnica já é adotada em larga escala — com taxas de até 30% de gestações gemelares em alguns rebanhos —, por aqui, o cenário é outro. A falta de mão de obra especializada e o custo inicial afastam muitos produtores. Mesmo assim, o mercado começa a reagir. Empresas de biotecnologia animal já oferecem pacotes completos, incluindo hormônios, sêmen sexado e acompanhamento técnico, facilitando a adesão. "O produtor não precisa ser um expert para usar a técnica. Basta ter disposição para aprender e investir", afirma a veterinária Ana Costa, que presta consultoria em reprodução animal no Tocantins.
O futuro da técnica, no entanto, ainda depende de mais estudos. Pesquisadores da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, trabalham para identificar raças mais adaptadas à gestação gemelar e desenvolver protocolos específicos para o clima tropical. Enquanto isso, criadores como Silva e Oliveira seguem apostando no método, mesmo com os riscos. "A gente sabe que não é garantido, mas quando dá certo, o retorno é rápido", diz Silva. Para o Tocantins, onde a pecuária é um dos pilares econômicos, a técnica pode ser mais uma ferramenta para manter a competitividade do setor.
Enquanto a ciência avança, a pergunta que fica é: até quando o produtor tradicional vai resistir à mudança? Em um mercado cada vez mais pressionado pela demanda por carne e leite, a resposta pode estar justamente nos bezerros que nascem dois a dois.