Colômbia e EUA: nova aliança e o que muda na América do Sul
Eleição de Gustavo Petro e aproximação com Trump redefine relações entre Bogotá e Washington, com reflexos para o Brasil

O presidente eleito da Colômbia, Gustavo Petro, e o futuro governo de Donald Trump nos Estados Unidos selam um novo capítulo nas relações bilaterais, que promete reverberar na geopolítica sul-americana. A aproximação entre os dois países, marcada pela vitória de Petro em junho e pela posse de Trump em janeiro de 2025, chega em um momento de tensões regionais e redefinição de alianças globais.
A Colômbia sempre foi um aliado estratégico dos EUA na América Latina, especialmente durante governos conservadores, quando a cooperação militar e econômica foi intensificada. Petro, primeiro presidente de esquerda do país, rompe com essa tradição ao propor uma política externa mais independente, com foco em diálogo com grupos armados e redução da dependência dos EUA. No entanto, a eleição de Trump — conhecido por sua postura dura contra governos de esquerda e por priorizar interesses econômicos americanos — cria um paradoxo: enquanto Petro busca autonomia, a aproximação com Washington pode impor limites a essa agenda.
Para os colombianos, a relação com os EUA sempre foi sinônimo de ajuda militar e investimentos, mas também de pressões políticas. A nova dinâmica pode trazer tanto oportunidades quanto conflitos. Petro já sinalizou que não romperá com os acordos de cooperação, mas quer renegociar termos, especialmente em temas como extradição e combate ao narcotráfico. Trump, por sua lado, deve cobrar resultados rápidos em segurança, dado seu histórico de cobranças duras a países latino-americanos durante seu primeiro mandato.
O impacto não se limita à Colômbia. O Brasil, maior parceiro comercial da América do Sul, pode ser afetado de duas formas. Primeiro, pela competição por investimentos americanos: se Trump priorizar Bogotá em detrimento de Brasília, o país perderá espaço em setores como energia e infraestrutura. Segundo, pela pressão sobre a política externa brasileira. O governo Lula tem buscado um equilíbrio entre aproximação com os EUA e autonomia regional, mas a nova aliança colombiana pode forçar o Brasil a tomar partido em disputas ideológicas que já dividem o continente.
A relação entre Petro e Trump ainda é uma incógnita. Durante a campanha, o colombiano criticou a política de Trump contra a imigração e o protecionismo comercial, enquanto o americano já chamou Petro de "perigoso" por suas posições progressistas. No entanto, a realidade pode obrigar ambos a negociar. A Colômbia depende economicamente dos EUA, que é seu maior parceiro comercial, e Trump não pode ignorar o papel estratégico de Bogotá no controle do narcotráfico e na estabilidade da região.
O que está em jogo não é apenas a relação bilateral, mas o futuro da integração sul-americana. Se a Colômbia se afastar do Mercosul para se aproximar dos EUA, a unidade do bloco pode se fragilizar. Além disso, a aproximação entre Bogotá e Washington pode reacender tensões com a Venezuela, já que Petro busca reatar relações com Caracas, enquanto Trump mantém uma postura hostil ao governo de Nicolás Maduro. Para o Tocantins e o Brasil, a situação exige atenção: o estado, por sua posição geográfica estratégica na fronteira com a Colômbia, pode ser impactado diretamente por mudanças no fluxo migratório e no comércio.
Os próximos meses serão decisivos. A posse de Trump em janeiro de 2025 e a definição da equipe de Petro para a política externa vão mostrar se a aliança será construída com pragmatismo ou se os choques ideológicos vão prevalecer. Uma coisa é certa: a América do Sul não será a mesma depois dessa reviravolta.