Tarifaço pode morder R$ 25 bi da economia brasileira
Estudo da Pilar Capital alerta para prejuízos no setor produtivo se medidas alfandegárias avançarem
O Brasil pode perder até R$ 25,4 bilhões em atividade econômica com a entrada em vigor de uma nova rodada de aumentos tarifários sobre produtos importados. O alerta vem do diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, Cassio Viana de Jesus, que aponta não apenas o impacto imediato da tarifa, mas o risco de uma escalada ainda maior nos custos para empresas e consumidores.
A discussão ganha força em um momento em que o governo federal discute medidas para proteger a indústria nacional, mas sem avaliar os efeitos colaterais sobre o bolso do trabalhador e o caixa das pequenas e médias empresas. Em Palmas, onde o comércio depende de insumos importados para setores como construção civil e alimentação, a notícia acende um sinal amarelo. "Não é só o preço final que sobe, mas a cadeia toda sente", explica um empresário do setor de materiais de construção no Tocantins, que preferiu não se identificar. Ele lembra que, há dois anos, quando houve um reajuste similar, o custo do aço subiu 15% em três meses, encarecendo obras residenciais e comerciais na capital.
O estudo da Pilar Capital, feito com base em dados da Receita Federal e do Banco Central, projeta que o impacto seria ainda maior se outras nações retaliassem as medidas brasileiras. "O maior risco não é a tarifa em si, mas a reação em cadeia que ela pode desencadear", afirma Cassio Viana de Jesus. Segundo ele, setores como o automobilístico e o de eletroeletrônicos, que já operam com margens apertadas, seriam os primeiros a sentir o baque. No Tocantins, onde a indústria ainda dá seus primeiros passos, a preocupação é com a competitividade. "Se os insumos ficarem mais caros, a gente perde espaço para produtos de outros estados", comenta um fabricante de móveis de Gurupi, cidade polo do setor moveleiro no sul do estado.
Os números do estudo mostram que, se a tarifa entrar em vigor, a perda de atividade econômica poderia chegar a 0,3% do PIB nacional. Para o Tocantins, que tem no comércio exterior uma fatia pequena mas crescente de sua economia, o impacto seria indireto, mas não menos doloroso. "Aqui, a gente depende muito de produtos vindos de fora, como máquinas agrícolas e peças para caminhões", diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (FIETO), José Geraldo de Oliveira. Ele lembra que, em 2022, o estado importou US$ 1,2 bilhão em bens de capital, boa parte deles usados por empresas locais.
A discussão não é nova. Desde o ano passado, o governo tem sinalizado com medidas protecionistas, mas sem um plano claro de como compensar os setores que dependem de importações. Em Palmas, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) já começa a se mobilizar. "A gente precisa entender como isso vai afetar o varejo, especialmente no Natal, quando as vendas costumam subir", diz a presidente da entidade, Maria das Graças Silva. Ela lembra que, em 2021, a inflação de produtos importados ajudou a derrubar o faturamento de lojas de eletrodomésticos em 8% no segundo semestre.
O governo federal ainda não se pronunciou oficialmente sobre o estudo, mas fontes ouvidas pela reportagem garantem que a equipe econômica estuda alternativas para suavizar o impacto. Enquanto isso, no Congresso, deputados tocantinenses já prometem pressionar por emendas que protejam a economia local. "A gente não pode deixar o Tocantins de fora dessa discussão", afirma o deputado federal Tiago Andrino (PSD-TO). Ele lembra que, em 2020, quando houve um surto de importações chinesas de aço, o estado perdeu cerca de 2 mil empregos na metalurgia.
O que vem pela frente ainda é incerto. O governo deve anunciar nos próximos dias se vai adiar a medida ou ajustar as alíquotas. Enquanto isso, empresários e sindicatos se preparam para o pior. Em Araguaína, no norte do estado, uma fábrica de ração animal já estuda reduzir sua produção em 20% caso os custos subam. "A gente não tem como repassar tudo para o preço final", diz o gerente da unidade, que pediu anonimato. No fim das contas, quem paga a conta pode ser o consumidor tocantinense, com produtos mais caros e menos opções nas prateleiras.
A Pilar Capital, que divulgou o estudo, é uma gestora de investimentos com sede em São Paulo, mas com operações em várias regiões do Brasil. Segundo Cassio Viana de Jesus, a empresa monitora de perto os impactos de políticas comerciais no crescimento econômico. "Não é questão de ser contra ou a favor da proteção à indústria, mas de medir os custos reais", afirma. Para ele, o ideal seria um debate mais amplo, envolvendo não só o governo, mas também os setores produtivos e a sociedade civil.
Enquanto Brasília não define seu próximo passo, o Tocantins se prepara para o que pode vir. Em Palmas, a prefeitura já estuda criar um grupo de trabalho com empresários para mapear os setores mais vulneráveis. "A gente não pode ficar parado esperando o prejuízo chegar", diz a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Kátia Cristina Lima. Ela lembra que, em 2019, quando houve uma crise no setor de soja, o município perdeu R$ 50 milhões em arrecadação. Agora, o desafio é evitar que a história se repita.
O relógio está correndo. Se a tarifa entrar em vigor, os primeiros sinais de impacto devem aparecer em 60 dias, quando as empresas começarem a reajustar preços. Até lá, a expectativa é de que o debate se intensifique, com pressão sobre o governo para que as medidas, se inevitáveis, sejam acompanhadas de compensações para os setores mais afetados. No Tocantins, onde a economia ainda busca seu lugar ao sol, a notícia chega como um novo teste de resistência.