Varejo global enfrenta onda de fechamentos e recuperações judiciais
Grandes redes de varejo na Europa, EUA e Brasil fecham lojas e recorrem a recuperação judicial por juros altos e queda nas vendas 15/05/2024

A gigante alemã Galeria Kaufhof anunciou planos de fechar dezenas de lojas enquanto negocia sua reestruturação. A decisão faz parte de um movimento mais amplo que atinge redes de varejo em três continentes, onde marcas antes dominantes agora lutam para sobreviver em um mercado cada vez mais hostil.
O Grupo Casas Bahia, no Brasil, também recorreu ao mesmo instrumento legal, a recuperação judicial, para tentar reorganizar suas dívidas e evitar a falência. A estratégia, embora controversa, tem se tornado recorrente entre empresas que enfrentam dificuldades financeiras agudas. O fechamento de pontos físicos e a busca por proteção judicial não são mais casos isolados, mas um padrão que se repete de Berlim a São Paulo.
O que une essas empresas é uma combinação de fatores que transformou o ambiente de negócios. Juros elevados encareceram o crédito, reduzindo o poder de compra dos consumidores. Ao mesmo tempo, a concorrência se intensificou com o crescimento do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos de consumo, que agora priorizam experiências e conveniência em detrimento da posse de bens duráveis. As redes que não conseguiram se adaptar rapidamente estão pagando o preço.
Na Alemanha, a Galeria Kaufhof, parte do grupo Signa Retail, já mapeou quais lojas serão fechadas e negocia com credores para viabilizar sua sobrevivência. No Brasil, o Grupo Casas Bahia, que já fechou centenas de unidades nos últimos anos, tenta renegociar dívidas que superam R$ 5 bilhões. Nos Estados Unidos, redes como a Bed Bath & Beyond também seguiram o mesmo caminho, decretando falência após anos de declínio.
Para os consumidores, as consequências são imediatas. A redução de pontos de venda limita opções de compra e pode encarecer produtos em regiões onde a concorrência já era baixa. Além disso, a incerteza sobre o futuro de marcas tradicionais afeta a confiança no mercado, especialmente para quem depende de financiamentos ou crediários. Pequenos fornecedores, que dependiam dessas redes para escoar sua produção, também sentem o impacto, com atrasos nos pagamentos e cortes de contratos.
Os números revelam a gravidade da situação. Só no primeiro trimestre de 2024, o varejo brasileiro registrou queda de 1,5% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio. Nos EUA, o fechamento de mais de 3 mil lojas foi anunciado apenas nos primeiros quatro meses do ano, um recorde desde 2020. Na Europa, a taxa de vacância de shoppings centers atingiu 12% em 2023, o maior nível em uma década.
A recuperação judicial, embora ofereça um fôlego temporário, não é garantia de sucesso. Das 15 maiores empresas que recorreram a esse mecanismo no Brasil desde 2020, apenas quatro conseguiram sair do processo sem decretar falência. Especialistas alertam que, sem mudanças estruturais — como redução de custos, inovação nos modelos de negócio e uma estratégia clara para o comércio digital —, o ciclo de fechamentos e recuperações pode se repetir.
A Galeria Kaufhof, por exemplo, já estuda transformar parte de suas lojas em espaços multiuso, combinando varejo com serviços e experiências. No Brasil, o Grupo Casas Bahia tenta acelerar sua transição para o e-commerce, mas enfrenta resistência de fornecedores e credores. Enquanto isso, consumidores e pequenos empresários aguardam para ver quais redes sobreviverão e quais desaparecerão do mapa.
O que vem por aí? Se a tendência se mantiver, mais fechamentos devem ser anunciados nos próximos meses, especialmente em setores como eletrodomésticos, móveis e vestuário. A pressão sobre as redes que ainda resistem só aumentará, e a adaptação ao novo cenário será a diferença entre a sobrevivência e o desaparecimento.