China censura imagens de enchentes no Nepal e Tibete
Autoridades chinesas restringem divulgação de fotos e dados sobre inundações que deixaram vítimas e danos em regiões vizinhas

As cenas das enchentes que atingiram o Nepal e o Tibete na quarta-feira passada, 26 de agosto, mostram um cenário de destruição: pontes arrastadas pela correnteza, estradas bloqueadas por lama e comunidades isoladas pela água. Mas quem tenta acessar essas imagens na China não encontra nada. Autoridades locais bloquearam a divulgação de fotos e vídeos das inundações, além de restringirem informações sobre o número de vítimas e a extensão dos danos.
O bloqueio não é novidade. Em 2020, durante as enchentes no sul da Ásia, a imprensa chinesa também limitou a cobertura de tragédias em países vizinhos. A justificativa, segundo analistas, está na política de controle de informações do governo. O regime chinês prioriza a estabilidade interna e evita que notícias de crises externas possam ser usadas para criticar a gestão local ou abalar a confiança na administração central. Além disso, a censura serve para evitar que imagens de desastres naturais em outras nações reforcem discussões sobre vulnerabilidades semelhantes dentro da China, especialmente em regiões montanhosas e propensas a enchentes.
As inundações no Nepal e no Tibete foram causadas por chuvas torrenciais que, segundo relatórios preliminares, deixaram pelo menos 12 mortos e desalojaram centenas de famílias. No Tibete, a situação foi agravada pela ruptura de barragens naturais formadas pelo acúmulo de gelo derretido, um fenômeno comum na região durante o verão. No Nepal, as enchentes atingiram áreas rurais, onde a infraestrutura é frágil e a resposta a emergências costuma ser lenta. Autoridades locais relataram danos em estradas, pontes e plantações, além de cortes no fornecimento de energia em algumas localidades.
A falta de transparência chinesa não afeta apenas a cobertura jornalística. Moradores de regiões fronteiriças, como moradores de Lhasa, no Tibete, e Katmandu, no Nepal, relatam dificuldades para obter informações atualizadas sobre o paradeiro de parentes ou a situação de propriedades. Em um caso documentado, uma família tibetana perdeu contato com três membros que vivem em uma aldeia próxima à fronteira com a China. Sem acesso a notícias oficiais ou relatos independentes, eles só conseguiram confirmar o paradeiro dos parentes após três dias, quando um vizinho conseguiu atravessar a fronteira e trazer a informação.
A China não é o único país a restringir informações em situações de crise. Outros regimes também controlam o fluxo de notícias durante desastres, mas o caso chinês chama atenção pela extensão da censura. Em 2019, durante as enchentes no sul da China, o governo bloqueou buscas na internet por termos como "chuva extrema" e "inundações", enquanto as redes sociais apagavam posts que mencionavam o tema. A estratégia, segundo ativistas, visa evitar que a população questione a capacidade do Estado de lidar com emergências.
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) já pediu mais transparência aos governos afetados pelas enchentes, mas não obteve resposta oficial da China. Enquanto isso, organizações não governamentais que atuam na região relatam que a falta de dados dificulta a mobilização de ajuda humanitária. "Sem informações precisas, não sabemos onde concentrar nossos esforços", afirmou um representante de uma ONG que pediu anonimato. A entidade teme que a situação piore nas próximas semanas, com a chegada de novas frentes de chuva.
O que se sabe até agora é que as enchentes no Nepal e no Tibete já deixaram um rastro de destruição que pode levar meses para ser reparado. Pontes improvisadas estão sendo construídas para restabelecer o acesso a vilarejos isolados, e governos locais pediram doações de alimentos, medicamentos e roupas. No entanto, sem a cooperação chinesa, a reconstrução e a ajuda às vítimas enfrentam obstáculos adicionais.
A próxima semana será crucial. Meteorologistas preveem novas chuvas intensas na região, o que pode piorar a situação. Enquanto isso, a comunidade internacional observa com preocupação a falta de transparência chinesa, que não só esconde a realidade das vítimas como também impede uma resposta coordenada aos danos causados pelas enchentes.