Fifa tem mais seleções que países reconhecidos pela ONU
Enquanto a organização das Nações Unidas exige reconhecimento político, a federação internacional de futebol aceita territórios e regiões com ligas próprias.

A Fifa mantém em seus registros um número superior de seleções do que o total de países membros da Organização das Nações Unidas. Essa diferença numérica revela como duas instituições internacionais trabalham com critérios completamente distintos para definir o que é — ou não — uma nação.
A explicação está nos requisitos de entrada. A federação internacional de futebol aceita como filiadas entidades que possuem ligas de futebol próprias e estrutura administrativa, mesmo que não sejam reconhecidas como países soberanos. Já a ONU segue um caminho diverso: suas portas se abrem apenas para entidades que conquistam reconhecimento político internacional como Estados independentes. Essa diferença conceitual gera uma disparidade que surpreende até especialistas em relações internacionais.
A ONU, criada em 1945 após o fim da Segunda Guerra Mundial, conta atualmente com 193 países membros. Cada um deles passou por um rigoroso processo de reconhecimento político, envolvendo aceitação de sua soberania por parte da comunidade internacional. Para um território ingressar na organização, é necessário que seja amplamente reconhecido como um Estado independente — o que envolve aspectos jurídicos, políticos e diplomáticos complexos.
A Fifa, por sua vez, funciona de maneira distinta desde sua fundação em 1904. A organização foca em capacidade técnica e administrativa para organizar futebol, não em status político. Isso abriu espaço para que territórios, regiões autônomas e até entidades políticas sem plena independência se filiassem. Casos como o da Palestina, das Ilhas Virgens Britânicas, de Curaçao e de Bermudas ilustram essa flexibilidade. São regiões com estruturas de futebol consolidadas que conquistaram seu lugar nas competições internacionais sem serem Estados reconhecidos pela ONU.
Essa distinção tem consequências práticas. Um território pode participar da Copa do Mundo ou da Eurocopa sem ser uma nação aos olhos do direito internacional. Ganha visibilidade global, constrói identidade através do esporte e desenvolve toda uma infraestrutura relacionada ao futebol. Para muitas regiões, disputar em competições de futebol é uma forma de exercer soberania simbólica — mesmo sem total autonomia política.
O fenômeno desperta reflexões sobre o papel do esporte nas relações internacionais. O futebol tornou-se, em muitos casos, um caminho alternativo para que comunidades afirmem sua identidade no cenário global. Isso ocorre porque a Fifa prioriza a organização administrativa e a capacidade de gestão de competições, deixando em segundo plano questões políticas que preocupam a ONU.
Para o torcedor tocantinense ou de qualquer lugar do Brasil, essa realidade se traduz em algo concreto: seleções que conhecemos e acompanhamos internacionalmente nem sempre são países de fato. Quando vemos Porto Rico, Curaçao ou a Palestina em campo, estamos vendo entidades que conquistaram seu espaço no futebol por capacidade técnica, não por reconhecimento político.
Os desdobramentos dessa diferença de critérios continuam gerando debates nos dois organismos. A Fifa enfrenta pressões para discutir se sua abertura é apropriada. Já a ONU convive com o fato de que territórios que não conseguem ingresso em suas fileiras circulam livremente pelas competições desportivas internacionais. No fim, duas visões de mundo convivem: uma focada em soberania política, outra em capacidade administrativa. O futebol, mais uma vez, prova ser um espelho das contradições do mundo contemporâneo.