Caçada ao espião de Assad revela rede de poder na Síria
Ex-chefe de inteligência sírio, conhecido como 'Aranha', foi alvo de operação internacional anos após a queda do regime

A perseguição a um dos homens mais temidos do regime de Bashar al-Assad terminou em uma prisão europeia, onde um ex-chefe de espionagem sírio, alcunhado de "Aranha", cumpre pena. A caçada durou anos e envolveu agentes de múltiplos países, revelando como a máquina de repressão do ex-ditador continuou ativa mesmo após a queda de Damasco.
A operação ganhou força depois que dezenas de milhares de documentos secretos vazaram em 2013, expondo a extensão da rede de vigilância e tortura montada por al-Assad. Entre os papéis, havia registros de ordens assinadas pelo então chefe de inteligência militar, Hafez Makhlouf — primo do ditador —, que davam poderes quase absolutos a subordinados como o "Aranha". Os arquivos mostravam como o aparato de segurança sírio operava: sequestros, prisões arbitrárias e métodos de interrogatório que deixavam vítimas com marcas permanentes. Makhlouf, que fugiu para a Rússia após a guerra, foi identificado como um dos principais articuladores do sistema, mas nunca respondeu por seus atos.
O "Aranha", cujo nome real nunca foi divulgado publicamente, comandava uma unidade especializada em rastrear dissidentes dentro e fora da Síria. Sua caçada começou quando um grupo de ativistas sírios exilados na Europa descobriu que ele havia se infiltrado em organizações de direitos humanos para identificar opositores. Em 2018, um relatório da Anistia Internacional detalhou como a inteligência síria usava redes sociais e contatos pessoais para localizar alvos, inclusive em países como Alemanha e Suécia. A perseguição ganhou novo fôlego quando a Justiça alemã abriu processo contra dois ex-agentes sírios por crimes contra a humanidade, em 2020. Um deles, Eyad al-Gharib, foi condenado a quatro anos e meio de prisão por cumplicidade em tortura — a primeira condenação desse tipo na Europa contra um membro do regime de al-Assad.
Os documentos vazados em 2013 foram a base para a investigação que levou à prisão do "Aranha". Entre os papéis, havia ordens escritas à mão com instruções para sequestrar e interrogar suspeitos, além de listas de nomes de pessoas consideradas ameaças ao regime. Um dossiê específico mencionava o "Aranha" como responsável por supervisionar a prisão de pelo menos 500 pessoas em uma única província síria entre 2011 e 2012. As vítimas, segundo relatos de sobreviventes, eram mantidas em centros clandestinos onde sofriam choques elétricos, espancamentos e privação de sono. Muitos desapareceram sem deixar rastro.
A prisão do ex-chefe de espionagem não encerrou a busca por outros responsáveis. Em 2021, a França emitiu mandados de prisão contra três altos funcionários sírios, incluindo um general, por envolvimento em crimes contra a humanidade. A Alemanha, por sua vez, investiga pelo menos dez casos semelhantes, enquanto a Suécia já indiciou um ex-membro da inteligência por participação em execuções extrajudiciais. A operação internacional depende, em grande parte, da cooperação entre promotores europeus e organizações não governamentais que coletam provas em zonas de conflito.
Para as vítimas e suas famílias, a prisão do "Aranha" é um alívio parcial. "Sabemos que há muitos outros como ele ainda livres", disse um ativista sírio que pediu anonimato por segurança. "Eles continuam no poder, protegidos por governos que os acolhem." A Rússia, aliada de al-Assad, negou pedidos de extradição, enquanto a Síria, sob controle do regime, sequer reconhece a existência de tais unidades de inteligência. A Justiça internacional, contudo, segue pressionando. Em 2023, o Tribunal Penal Internacional (TPI) recebeu novas evidências sobre o uso de armas químicas pelo regime, com possíveis ligações a membros da rede de espionagem.
A caçada ao "Aranha" expôs uma realidade incômoda: mesmo com a queda de Damasco, a máquina de repressão síria não foi desmantelada. Ela se adaptou, migrou para outros países e continuou operando com a mesma lógica de medo e controle. Enquanto isso, promotores europeus seguem atrás de novos nomes, cientes de que a justiça, para muitos, chegou tarde demais.