Polícia desarticula quadrilha no interior do Tocantins
Operação em dezembro mira facção com atuação em Araguaína e região; 12 alvos são procurados

A Polícia Civil do Tocantins deflagrou na manhã desta terça-feira uma megaoperação para desmantelar uma organização criminosa que atuava de forma articulada no norte do estado. A ação, batizada de "Cata-Vento", mirou um grupo suspeito de integrar uma facção nacional, com ramificações em Araguaína e municípios vizinhos como Filadélfia e Wanderlândia. Ao todo, 12 foragidos são procurados pela Justiça, acusados de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes conexos.
A investigação que levou à operação começou em dezembro do ano passado, quando a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) de Araguaína identificou um padrão de atuação do grupo: uso de veículos de luxo para transportar substâncias, aliciamento de jovens em bairros periféricos e até a infiltração em estabelecimentos comerciais para lavar dinheiro. "Eles não só vendiam drogas, mas também controlavam pontos de venda e cobravam ‘pedágio’ de comerciantes", afirmou um delegado que participou das diligências, sob sigilo. Segundo apurou a reportagem, a facção teria ligações com outros estados, o que ampliou o alcance da investigação para além das fronteiras tocantinenses.
Para quem vive em Araguaína e na região, a notícia chega em um momento sensível. A cidade, que já enfrenta problemas recorrentes com o tráfico — especialmente nos bairros Santa Luzia e Vila Nova — viu o número de ocorrências relacionadas a drogas aumentar 15% no primeiro semestre deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Tocantins. "A população sente na pele o impacto desses grupos. Não é só o tráfico, mas a violência que ele gera", comentou um morador do Santa Luzia, que preferiu não se identificar. A operação também serve como um alerta para outros municípios do estado, como Colinas do Tocantins e Guaraí, onde a polícia local tem intensificado rondas noturnas em áreas consideradas vulneráveis.
Os alvos da operação incluem nomes já conhecidos pela polícia, como o de um homem de 35 anos, foragido desde 2023 por tráfico internacional de drogas, e uma mulher de 28 anos, acusada de coordenar a logística do grupo. Até o fechamento desta edição, três pessoas haviam sido presas em flagrante durante a operação, que mobilizou mais de 80 policiais civis e militares, além de agentes da Receita Federal. "A prisão desses líderes é só o começo. Agora, vamos atrás dos bens que eles acumularam ilegalmente", declarou o delegado-geral da Polícia Civil do Tocantins, José Wilson de Oliveira.
A facção, segundo a polícia, teria faturado milhões nos últimos dois anos com a venda de cocaína e maconha, além de praticar extorsão e sonegação fiscal. Em uma das diligências, os agentes apreenderam R$ 120 mil em espécie, três veículos de alta gama e documentos que comprovam a compra de imóveis em nome de laranjas. "Eles usavam laranjas para esconder a origem do dinheiro, mas a Receita Federal já está cruzando dados para identificar os verdadeiros donos", explicou um auditor da Receita que acompanhou a operação.
A operação "Cata-Vento" deve se estender pelos próximos dias, com buscas em endereços suspeitos em Araguaína, Palmas e até em estados vizinhos como o Maranhão. A polícia não descarta a possibilidade de novas prisões, especialmente se mais provas forem encontradas nos aparelhos eletrônicos apreendidos. Enquanto isso, a população de Araguaína e região aguarda para ver se a ação trará mudanças concretas no cotidiano, como a redução dos pontos de venda de drogas ou até mesmo a queda nos índices de criminalidade.
Para especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem, o sucesso da operação dependerá não só da prisão dos líderes, mas também de políticas públicas que ofereçam alternativas para os jovens que são aliciados pelo tráfico. "A polícia pode desarticular o grupo hoje, mas se não houver investimento em educação e emprego, outros vão ocupar o lugar deles amanhã", avaliou o sociólogo Marcos Ribeiro, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
A Polícia Civil informou que deve divulgar um balanço completo da operação nos próximos dias, incluindo o número exato de apreensões e a lista atualizada dos foragidos. Enquanto isso, a população pode colaborar com informações anônimas pelo Disque-Denúncia (181) ou pelo aplicativo da polícia, que promete manter o sigilo dos informantes.