Gaita como púlpito: pastor gaúcho leva fé às redes sociais
Marcelo Gaúcho, 44, mistura evangelização com tradição campeira do Rio Grande do Sul e viraliza com músicas religiosas em acordeão

No Rio Grande do Sul, um pastor encontrou na gaita o caminho para aproximar a religião do povo das tradições locais. Marcelo Gaúcho, aos 44 anos, transformou o instrumento em ferramenta de pregação, criando um formato inovador que mescla cultos evangélicos com a cultura campeira gaúcha.
O trabalho começou quando o religioso decidiu unir dois universos que, à primeira vista, pareciam distantes: a fé cristã e o folclore do Sul. Equipado com um acordeão de oito baixos, ele passou a realizar apresentações que ele mesmo batizou como "cultos campeiros". As transmissões acontecem tanto nas redes sociais quanto em igrejas evangélicas onde o pastor realiza seus trabalhos, sempre trajado com roupas típicas da região gaúcha.
A estratégia funcionou. Marcelo Gaúcho ganhou visibilidade em plataformas digitais graças a uma música específica: "Pataço de avestruz". A faixa virou viral, levando seu nome para além das comunidades religiosas tradicionais. O refrão da composição consegue fazer a ponte entre o linguajar religioso e os costumes da tradição campestre, criando uma narrativa que toca tanto os fiéis quanto os curiosos pelas manifestações culturais sul-rio-grandenses.
Para quem vive no Tocantins, a iniciativa representa um modelo de ressignificação cultural. Embora nosso estado tenha características completamente diferentes do Rio Grande do Sul, o exemplo mostra como tradições regionais podem servir de base para práticas religiosas criativas. Nos últimos anos, igrejas evangélicas tocantinenses também exploram elementos da cultura local em suas pregações, desde músicas que usam ritmos tradicionais até espaços que dialogam com a realidade amazônica.
Os "cultos campeiros" de Marcelo não se limitam a apresentações isoladas. Ele mantém uma rotina de transmissões e apresentações presenciais que atraem seguidores interessados tanto na dimensão espiritual quanto no resgate das tradições gaúchas. A repercussão nas redes sociais, particularmente com "Pataço de avestruz", expandiu seu alcance para públicos que talvez nunca frequentassem uma igreja evangélica tradicional.
A escolha do acordeão como instrumento principal reforça a autenticidade do projeto. Diferentemente de igrejas que adotam guitarras elétricas e baterias eletrônicas, o pastor gaúcho privilegia um instrumento profundamente enraizado na cultura folclórica sul-brasileira. Essa decisão ressoa com gerações que cresceram ouvindo gaita em festas comunitárias e celebrações familiares.
O fenômeno levanta questões sobre como instituições religiosas se adaptam aos tempos contemporâneos. Enquanto alguns segmentos do protestantismo enfatizam a modernidade e a tecnologia em suas pregações, Marcelo Gaúcho segue outro caminho: resgata o arcaico, o tradicional, e o coloca em novo contexto. Essa abordagem encontra espaço entre fiéis que buscam conexões mais profundas com suas raízes culturais.
A trajetória do pastor também demonstra que o sucesso nas redes sociais não exige fórmulas prontas ou imitação do que funciona em grandes centros. A autenticidade e o conhecimento genuíno da tradição que se pretende evangelizar parecem ter peso mais decisivo que qualquer estratégia de marketing convencional.
O desafio que se coloca agora é saber se esse modelo resiste ao longo do tempo ou se é apenas um episódio viral passageiro. Independentemente disso, Marcelo Gaúcho já conquistou algo raro: a capacidade de fazer diálogo entre fé e folclore sem parecer artificial ou forçado.