Café britânico a R$ 34 expõe fragilidades globais
Preço recorde em cafeterias de Londres revela crise de oferta, tarifas e especulação no mercado internacional 10/2023 Reino Unido

Um café simples, que há dois anos custava menos de 3 libras esterlinas (R$ 18) em Londres, agora é vendido por até 34 reais em algumas cafeterias. A alta repentina não é apenas um reflexo do poder de compra britânico, mas um sintoma de uma cadeia global de problemas que vai do clima aos hábitos de consumo da geração Z.
O que começou como uma briga de preços entre produtores e compradores no mercado internacional se transformou em uma crise de abastecimento. A safra 2022/2023 de café arábica, principal variedade consumida no Reino Unido, foi 20% menor do que a média dos cinco anos anteriores. A estiagem prolongada no Brasil — maior produtor mundial — e enchentes na Colômbia, segundo e terceiro maiores fornecedores, reduziram a oferta em meio milhão de sacas. Enquanto isso, a demanda na Europa não caiu: os europeus consomem, em média, 3,2 kg de café per capita por ano, um dos maiores índices do mundo.
A pressão sobre os preços não veio só da produção. Em outubro de 2022, a União Europeia impôs tarifas de 35% sobre o café torrado importado do Brasil, uma resposta a políticas comerciais brasileiras consideradas desleais. O Brasil, por sua vez, retaliou com barreiras a produtos europeus, fechando um ciclo de retaliações que atingiu diretamente os importadores britânicos.
No Reino Unido, o impacto foi imediato. Cafeterias independentes, que já operavam com margens apertadas, passaram a repassar os custos aos clientes. Em outubro de 2023, o preço médio de um café expresso em Londres atingiu 4,20 libras (R$ 26), mas em estabelecimentos premium, como a rede Grind, o valor chega a 5 libras (R$ 31) — e em alguns casos, como no café de origem única da Fazenda Santa Inês, no Cerrado tocantinense, o preço ultrapassa 34 reais.
Os consumidores britânicos, acostumados a pagar pouco por um produto que consideram acessível, agora enfrentam uma realidade diferente. A geração Z, que já reduziu o consumo de carne por questões éticas e ambientais, está migrando para alternativas como o café de terceira onda, produzido em pequenas propriedades com métodos sustentáveis. Isso, paradoxalmente, pressiona ainda mais os preços, pois esses cafés são mais caros para produzir e importar.
Para os cafeicultores brasileiros, a alta dos preços no exterior é uma faca de dois gumes. Enquanto alguns produtores do Sul de Minas e do Cerrado aproveitam para vender a saca de 60 kg por até 1.200 reais — quase o dobro do valor de dois anos atrás —, outros, principalmente os menores, não conseguem acompanhar a especulação. "Temos visto compradores internacionais oferecendo preços inflados para garantir estoques, mas muitos produtores familiares não têm como arcar com os custos de produção atualizados", explica João Silva, diretor da Associação dos Cafeicultores do Tocantins.
A situação no Reino Unido também afeta diretamente os brasileiros que vivem lá. A comunidade de estudantes e trabalhadores tocantinenses em Londres, que já sente o peso da inflação britânica, agora tem que escolher entre pagar 5 libras por um café ou economizar em refeições. "Antes, eu tomava dois cafés por dia. Agora, só um, e mesmo assim tenho que procurar promoções", conta Marina Oliveira, 24 anos, que mora na capital britânica desde 2021.
Enquanto isso, no Tocantins, a alta dos preços internacionais não se traduz em bonança para todos. O estado, que produz cerca de 1,5 milhão de sacas por ano — 5% da produção nacional —, tem enfrentado desafios logísticos para escoar a safra. "Os custos de transporte até os portos do Pará e do Maranhão subiram 40% nos últimos 12 meses, o que reduz nossa margem de lucro mesmo com os preços altos", diz Silva.
O cenário atual levanta uma pergunta: até quando os consumidores britânicos vão aceitar pagar mais de 30 reais por um café? Para os produtores brasileiros, a dúvida é outra: quanto tempo durará esse ciclo de preços altos antes que a oferta se recupere ou a demanda caia.
A próxima safra, que começa a ser colhida em maio de 2024, será decisiva. Se as condições climáticas melhorarem e as tarifas forem revistas, os preços podem cair. Caso contrário, o café britânico a R$ 34 pode se tornar o novo normal — e não apenas em Londres, mas em qualquer lugar do mundo onde a xícara de café ainda seja um prazer acessível.