Islândia reavalia defesa sem exército após Trump ameaçar OTAN
País europeu que não mantém forças armadas desde 1869 vê segurança ameaçada com possível redução do apoio dos EUA; discussão ganha fôlego em meio à volta de Trump à presidência

A Islândia, única nação do mundo sem exército permanente desde 1869, enfrenta agora um dilema inédito: como garantir sua segurança sem as garantias históricas dos Estados Unidos e da OTAN. A situação se agravou com a perspectiva da volta de Donald Trump à Casa Branca, cuja postura crítica em relação à aliança militar já colocou em xeque o modelo de defesa islandês, construído ao longo de décadas sobre a confiança em Washington e Bruxelas.
A ilha no Atlântico Norte, conhecida por sua paisagem vulcânica e por ser um dos países mais pacíficos do planeta, sempre dependeu da proteção externa. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA mantiveram uma base militar em Keflavík — fechada em 2006, mas com acordos de defesa renovados periodicamente. A OTAN, por sua vez, sempre atuou como um escudo simbólico, mesmo sem tropas estacionadas no território. Agora, com Trump sinalizando que não necessariamente honraria compromissos automáticos com aliados, Reykjavik se vê obrigada a repensar sua estratégia de segurança em um ritmo acelerado.
O problema não é apenas teórico. A Islândia, embora não tenha forças armadas, mantém uma guarda costeira e uma unidade de resposta a crises, além de participar ativamente de missões da OTAN. Mas sem um exército próprio, o país depende de aliados para qualquer ação militar direta. A volta de Trump ao poder reacendeu o debate sobre até que ponto os EUA estariam dispostos a intervir em defesa de um território que, geograficamente, é estratégico para a Europa, mas não tem peso geopolítico comparável a outros membros da aliança.
A situação ganha contornos ainda mais urgentes quando se considera a proximidade da Islândia com a Rússia. Moscou, que já demonstrou interesse em expandir sua influência no Ártico, poderia ver na fragilidade islandesa uma oportunidade. Embora não haja indícios de uma ameaça imediata, a ausência de um exército próprio deixa o país vulnerável a pressões externas, especialmente em um cenário de tensão crescente entre a OTAN e o Kremlin.
Para os islandeses, a discussão não é apenas sobre geopolítica, mas sobre sobrevivência. A economia do país, baseada em pesca e turismo, depende de estabilidade regional. Qualquer instabilidade poderia afetar diretamente a vida cotidiana, desde o preço do pescado até a segurança dos voos que cruzam o Atlântico. Além disso, a população, acostumada a décadas de paz, agora precisa lidar com a possibilidade de que a proteção que sempre considerou garantida possa não ser mais tão certa.
O governo islandês, ciente do desafio, já começou a avaliar alternativas. Uma delas é reforçar a cooperação com outros países nórdicos, como Noruega e Dinamarca, que mantêm forças armadas robustas. Outra possibilidade é investir em tecnologia de defesa não convencional, como sistemas de monitoramento avançado e cibersegurança, áreas onde a Islândia já tem alguma expertise. Mas nenhuma dessas soluções substitui a necessidade de um exército tradicional, algo que a sociedade islandesa, historicamente avessa ao militarismo, reluta em aceitar.
A discussão também chega ao Legislativo. Parlamentares islandeses já apresentaram projetos para criar uma força de defesa mínima, ainda que simbólica, capaz de responder a ameaças locais ou regionais. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de setores que argumentam que a Islândia nunca precisou de exército e que a paz interna é mais bem garantida por políticas de cooperação internacional. O impasse reflete uma divisão profunda: de um lado, a necessidade de segurança; de outro, a identidade nacional construída sobre a rejeição à militarização.
Enquanto a Islândia busca um caminho, o mundo observa. O caso islandês serve como um alerta para outros países que, como ela, dependem de alianças externas para sua defesa. Se até mesmo uma nação com tradição de neutralidade e paz forçada a repensar sua estratégia, o que isso diz sobre o futuro da segurança global em tempos de incerteza? A resposta pode definir não apenas o futuro da ilha no Atlântico Norte, mas o modelo de defesa de nações que, como ela, sempre apostaram na proteção alheia.
Ainda não há um desfecho claro. O que se sabe é que a Islândia não pode mais adiar a discussão. Se Trump mantiver sua postura crítica à OTAN, ou se a Rússia intensificar suas ações no Ártico, Reykjavik terá que agir rápido — ou arriscar sua segurança em um mundo cada vez menos previsível.