Pecuária brasileira bate recorde e exige controle rígido
Exportações de carne bovina atingem 3,5 milhões de toneladas em 2025; rastreabilidade do rebanho vira foco de fiscalização

O Brasil fechou 2025 com números históricos na exportação de carne bovina: 3,5 milhões de toneladas embarcadas, um volume que não apenas consolidou o país como maior fornecedor global, mas também jogou luz sobre um desafio antigo — e cada vez mais urgente. A rastreabilidade do rebanho, que há anos é tema de discussão entre produtores e órgãos reguladores, ganhou contornos de prioridade nacional diante do crescimento acelerado do setor.
A demanda por transparência não é nova, mas o cenário atual impôs mudanças. Em 2025, a fiscalização sobre a origem dos animais intensificou-se, pressionada pela necessidade de atender não só aos requisitos de mercados internacionais, como também às exigências de consumidores cada vez mais atentos à procedência da carne. O Ministério da Agricultura, por exemplo, ampliou os pontos de controle em estados-chave da produção, onde a concentração de rebanhos é maior. A medida, no entanto, esbarrou em realidades distintas: enquanto grandes frigoríficos já operam com sistemas de rastreio digital, muitos produtores de pequeno e médio porte ainda dependem de métodos manuais ou até mesmo informais para registrar a movimentação de seus animais.
A pressão não vem apenas de fora. Internamente, a cadeia produtiva enfrenta cobranças de organizações não governamentais e de segmentos da sociedade civil que exigem garantias de que a expansão da pecuária não está associada ao desmatamento ou a más práticas trabalhistas. Em 2024, relatórios de entidades como o Greenpeace e a WWF já haviam alertado para o risco de o Brasil perder mercados se não demonstrasse controle efetivo sobre a origem da carne. O governo, por sua vez, respondeu com a criação de um grupo de trabalho interministerial, que deve apresentar até junho de 2026 um plano nacional de rastreabilidade, com metas progressivas para os próximos cinco anos.
Os números mostram por que a questão ganhou tanta relevância. Segundo dados do Ministério da Agricultura, o valor das exportações de carne bovina em 2025 superou US$ 15 bilhões, um recorde que reflete não apenas a competitividade do produto brasileiro, mas também a confiança de países como China, Estados Unidos e União Europeia. No entanto, a mesma base que sustenta esse crescimento — o rebanho de 250 milhões de cabeças — exige um sistema capaz de garantir que cada animal possa ser identificado desde o nascimento até o abate.
Para os frigoríficos, a adaptação já começou. Empresas como JBS e Minerva Foods investiram em tecnologias de blockchain para registrar a trajetória dos animais, desde a fazenda até o processamento. A iniciativa, embora ainda restrita a uma parcela do mercado, é vista como um passo necessário para evitar barreiras comerciais. "A rastreabilidade não é um custo, é um investimento", afirmou um executivo da JBS, que preferiu não ser identificado. "Sem ela, perdemos competitividade em mercados que pagam mais por transparência."
Já para os produtores rurais, a realidade é mais complexa. Muitos ainda enfrentam dificuldades para acessar tecnologias ou até mesmo para regularizar documentos básicos, como a Guia de Trânsito Animal (GTA). A burocracia, segundo relatos de sindicatos de pecuaristas, é um dos principais entraves para a adesão aos sistemas de rastreio. "O produtor quer fazer a coisa certa, mas o caminho é cheio de obstáculos", disse um representante da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
O desafio agora é equilibrar a necessidade de controle com a viabilidade econômica para todos os elos da cadeia. Enquanto o governo estuda linhas de crédito para financiar a modernização de pequenas propriedades, a expectativa é que a fiscalização se torne ainda mais rigorosa nos próximos meses. A União Europeia, por exemplo, já sinalizou que poderá exigir, a partir de 2027, certificados digitais de rastreabilidade para todos os embarques de carne bovina provenientes do Brasil.
Ainda não está claro como o setor vai se adaptar a tempo. O que se sabe é que, sem um sistema eficiente, o recorde de exportações de 2025 pode se tornar um problema em 2026. A pressão está posta, e o relógio não para.