Ex-detento volta para casa após virar médico em Tocantins
Wallace da Costa, 47 anos, formado pela UFNT, reencontra família em Juiz de Fora após anos de estudo e superação

Wallace William da Costa, 47 anos, pisou ontem no chão de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, pela primeira vez em quatro anos. A volta para casa não foi simples: ele deixou mulher e quatro filhas para trás quando ingressou na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, onde cursou Medicina. O reencontro com a família, que ele define como "o maior presente", marca o fim de uma jornada que começou longe dos abraços que hoje recebe diariamente.
O estudante não esconde a emoção ao falar do momento. "Nunca desisti dele", diz Patrícia Franco, esposa de Wallace, que manteve a família unida mesmo com a distância. As filhas, que hoje têm entre 10 e 18 anos, cresceram vendo o pai estudar por vídeo e, depois, viajar para Araguaína nos fins de semana. A rotina era dura: aulas de manhã, plantão à tarde e madrugadas estudando para não perder o ritmo. "A gente se falava todo dia, mas era diferente. Agora, é tudo junto de novo", conta Patrícia, que trabalha como costureira na cidade mineira.
A decisão de Wallace de deixar Juiz de Fora não foi fácil. Ele já havia passado por uma fase complicada na vida, que o levou a cumprir pena em regime fechado. Mas foi na prisão que descobriu o gosto pelos livros. "Lá dentro, eu vi que a educação era a única porta que ninguém podia fechar", lembra. Ao sair, prestou vestibular e, em 2019, foi aprovado na UFNT. A universidade, que fica a mais de 2 mil quilômetros de casa, se tornou o palco de uma segunda chance.
A UFNT, em Araguaína, é uma das poucas instituições públicas do Tocantins que oferecem Medicina, o que atraiu estudantes de várias regiões. Para Wallace, a escolha não foi apenas pela qualidade do curso, mas pela oportunidade de reconstruir a vida. "Aqui, a gente tem que lutar muito. Mas quando a gente chega, vê que vale a pena", diz ele, que dividia o tempo entre as aulas e o alojamento estudantil.
A formatura dele, prevista para dezembro, será um marco não só para a família, mas também para a comunidade acadêmica da UFNT. O curso de Medicina da universidade tem sido alvo de debates no Tocantins, especialmente sobre a formação de profissionais para atuar no interior do estado. Com a chegada de mais médicos formados localmente, a expectativa é reduzir a dependência de profissionais de outros estados, um problema recorrente na saúde pública tocantinense.
Para Patrícia, a volta do marido significa mais do que um diploma. "Ele sempre foi um pai presente, mesmo longe. Agora, a gente vai poder construir coisas juntos, coisa que a gente não podia fazer antes", diz. As filhas, que agora veem o pai todos os dias, já começaram a planejar viagens e passeios em família. "A gente vai mostrar para ele tudo o que mudou por aqui também", conta uma das meninas, que estuda em escola pública de Juiz de Fora.
A história de Wallace também coloca em pauta a ressocialização de ex-detentos no Brasil. No Tocantins, programas como o "Começar de Novo", do governo estadual, têm buscado oferecer oportunidades para quem cumpre pena. A UFNT, por sua vez, tem aberto portas para estudantes que, como ele, buscam uma nova trajetória. "A educação é a melhor forma de transformar vidas", afirma um professor da universidade, que preferiu não se identificar.
O próximo passo de Wallace é se especializar em uma área da Medicina. Ele já tem em mente algumas opções, mas ainda não decidiu qual. Enquanto isso, a rotina em Juiz de Fora segue com a alegria de ter o pai de volta. "A gente não vai mais se separar", garante Patrícia. Para a família, a história de Wallace é um exemplo de que, com determinação, é possível reescrever o futuro.
A UFNT, por sua vez, já prepara uma recepção para o formando. A cerimônia de colação de grau deve acontecer em dezembro, com a presença de autoridades locais e familiares. Enquanto isso, Wallace aproveita cada momento ao lado das filhas, que agora podem contar com ele todos os dias. "A gente vai viver isso juntos", diz ele, com um sorriso no rosto.