Jovens de Palmas adiam compra do primeiro carro por planejamento financeiro
Pesquisa mostra que nova geração avalia custos de manutenção, seguro e consumo antes de fechar negócio em 2024

A compra do primeiro carro deixou de ser um impulso entre os jovens de Palmas. Agora, o planejamento financeiro virou regra antes de fechar qualquer negócio. Levantamentos informais entre lojas de veículos da capital e conversas com consultores de seguros mostram que a nova geração pesquisa não só os modelos disponíveis, mas também o custo de manutenção, as despesas com seguro, o consumo de combustível e até a perspectiva de valorização do veículo no mercado.
O fenômeno não é exclusivo de Palmas, mas ganha contornos locais pela realidade econômica do Tocantins. Com a inflação ainda pressionando o bolso das famílias e o preço da gasolina oscilando nas bombas de combustível da cidade, os jovens — especialmente aqueles que começam a trabalhar em áreas como comércio, serviços ou tecnologia — estão adiando a decisão ou optando por modelos mais econômicos. Em bairros como o Centro, Sul e Taquaralto, onde a circulação de veículos é intensa, as concessionárias já perceberam a mudança no perfil do comprador. "Antes, as pessoas vinham aqui querendo um carro novo, qualquer modelo, desde que coubesse no financiamento. Hoje, elas chegam com planilhas na mão", conta um vendedor da região do Shopping Capim Dourado, que preferiu não ser identificado.
A preocupação não é à toa. Em Palmas, o custo de vida subiu 8,2% nos últimos 12 meses, segundo dados da Secretaria de Estado da Fazenda. O combustível, que já foi um dos mais baratos do país, agora oscila entre R$ 5,80 e R$ 6,20 o litro nos postos da capital. Para quem depende do carro para trabalhar — como mototaxistas do setor de delivery ou vendedores que atendem clientes em bairros afastados —, o gasto com combustível pode representar até 30% da renda mensal. "Eu uso o carro para trabalhar, mas antes de comprar, pesquisei quanto gastaria por mês com combustível e manutenção. Não adianta ter um carro bonito se o dinheiro não sobra para as outras contas", explica Lucas Ferreira, 24 anos, morador do bairro Jardim Aureny III e funcionário de uma loja de eletrônicos.
Além do bolso, a tecnologia também entrou na conta. Modelos com mais de cinco anos de fabricação já não são tão atrativos quanto antes, mesmo que o preço seja menor. "Os jovens querem carros com sistemas de segurança atualizados, conectividade e até assistente de direção. Isso encarece o seguro e, muitas vezes, inviabiliza a compra de um usado", comenta a corretora de seguros Ana Carolina Oliveira, que atende clientes em todo o Tocantins. Segundo ela, o valor médio do seguro para um carro zero quilômetro em Palmas subiu 12% em 2024, puxado pela alta nos preços dos componentes e pela falta de peças no mercado.
A tendência também reflete uma mudança cultural. Enquanto os pais e avós dos jovens de hoje compravam carros como símbolo de status, a nova geração enxerga o veículo como uma ferramenta de trabalho ou um investimento. Em Araguaína, por exemplo, onde o transporte público é limitado, muitos optam por motos ou carros usados com baixo cede de manutenção. Já em Gurupi, a preferência recai sobre modelos compactos, que gastam menos combustível nas viagens até a capital.
Para quem ainda sonha com o carro próprio, a saída tem sido o aluguel ou o compartilhamento. Em Palmas, aplicativos como o Turo e o Rentcars ganharam espaço entre os jovens que querem testar modelos antes de comprar ou que precisam de um veículo apenas nos fins de semana. "É uma forma de não se endividar e ainda ter a experiência de dirigir diferentes carros", diz Marina Silva, 22 anos, estudante de administração e usuária frequente desses serviços.
As concessionárias da capital já se adaptam. Algumas passaram a oferecer pacotes de manutenção preventiva incluso nos financiamentos, enquanto outras criaram simuladores online para que os clientes calculem o custo real de possuir um veículo. "A gente percebeu que quem chega aqui com as contas organizadas acaba fechando negócio com mais facilidade. É um ciclo: planejamento atrai planejamento", afirma o gerente de uma loja no setor Norte de Palmas, que pediu anonimato.
O fenômeno não deve se reverter tão cedo. Com a economia do Tocantins ainda se recuperando da crise dos últimos anos e o preço dos combustíveis dependendo de fatores externos, como a cotação do petróleo no mercado internacional, a tendência é que os jovens continuem priorizando a saúde financeira antes de assumir um compromisso tão grande quanto a compra de um carro. Para eles, não basta ter um veículo; é preciso que ele caiba no orçamento sem sufocar o dia a dia.
Enquanto isso, as montadoras e concessionárias seguem de olho no comportamento do consumidor. Se antes o foco era vender, agora o desafio é mostrar que o carro pode ser um bom negócio — desde que a decisão seja bem pensada.