Família chora jovem de 19 anos carbonizada em Araguaína
Laiane Noleto e padrasto morrem em incêndio; Polícia Civil investiga causas do fogo

Araguaína amanheceu ontem com uma dor que não sai das ruas nem dos lares. Laiane Cardoso Noleto, 19 anos, foi encontrada morta dentro de casa, junto ao padrasto, Ivano Vaz Cunha, 49. O corpo dos dois foi carbonizado pelo fogo que destruiu parte da residência, na manhã de segunda-feira, no bairro Jardim das Nações, zona norte da cidade. A Polícia Civil do Tocantins já abriu inquérito para apurar as causas do incêndio, mas a família não esconde a descrença: "Ninguém acredita ainda", desabafou um primo da jovem.
Laiane era conhecida na família como uma pessoa quieta, dedicada aos estudos e ao trabalho. Ela atuava como atendente em uma clínica particular de Araguaína e, aos 19 anos, já planejava ingressar na faculdade de Direito. "Menina nova, com um futuro brilhante pela frente", resumiu um familiar que pediu para não ser identificado. O padrasto, Ivano, trabalhava como autônomo na região e, segundo relatos, tinha um relacionamento conflituoso com a enteada. Vizinhos ouviram gritos na madrugada, mas ninguém chamou a polícia a tempo. O fogo só foi notado por volta das 7h, quando um morador passou pela casa e viu a fumaça saindo pelas frestas da porta.
O incêndio deixou a comunidade em choque. Araguaína, cidade com cerca de 180 mil habitantes, já registrou outros casos de violência doméstica este ano, mas a morte de Laiane ganha contornos ainda mais trágicos pela idade da vítima e pela forma como ocorreu. A Polícia Civil informou que peritos do Instituto de Criminalística estão no local para coletar provas e reconstituir os últimos momentos do casal. O delegado responsável pelo caso, ainda não identificado pela corporação, deve ouvir testemunhas e analisar imagens de câmeras de segurança da vizinhança.
A família de Laiane, moradora do bairro São João, em Araguaína, já acionou a Defensoria Pública do Tocantins para acompanhar o inquérito. "Eles estão desolados, mas querem respostas", afirmou o primo. A clínica onde Laiane trabalhava, localizada no centro da cidade, emitiu nota de pesar e suspendeu as atividades por algumas horas em sinal de luto. A prefeitura de Araguaína, por meio da Secretaria de Segurança Pública, não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o fechamento desta edição.
O que se sabe até agora é que o fogo começou na cozinha da casa, segundo laudos preliminares. Não há indícios de que tenha sido um curto-circuito, mas a hipótese de crime não foi descartada. A Polícia Civil trabalha com duas linhas: a de que o incêndio pode ter sido acidental, provocado por algum objeto inflamável próximo ao fogão, ou intencional, como forma de encobrir outro tipo de violência. "Tudo está sendo analisado", disse um investigador que pediu anonimato.
Para quem vive em Araguaína, o caso reacende o debate sobre a segurança das mulheres e a proteção às vítimas de violência doméstica. A cidade conta com uma Casa da Mulher Brasileira, inaugurada em 2019, mas o equipamento ainda enfrenta dificuldades para atender todas as demandas. Em 2023, o Tocantins registrou 12 feminicídios, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Este ano, já são três casos confirmados, incluindo o de Laiane.
A Defensoria Pública do Tocantins informou que vai acompanhar de perto o andamento do inquérito e oferecer apoio jurídico à família. "Vamos garantir que a justiça seja feita", afirmou uma defensora ouvida pela reportagem. Enquanto isso, a comunidade de Araguaína se mobiliza para realizar um ato em memória de Laiane na próxima sexta-feira, no largo da Catedral de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A prefeitura ainda não confirmou se vai ceder o espaço.
O caso deve seguir para a Delegacia de Homicídios de Araguaína, onde os investigadores terão 30 dias para apresentar um relatório preliminar. Se houver indícios de crime, o inquérito será encaminhado ao Ministério Público do Tocantins, que decidirá pela denúncia ou pelo arquivamento. Até lá, a família de Laiane e os moradores da cidade seguem em luto, esperando por respostas que, para eles, ainda não chegaram.