Celular na infância afeta saúde mental de crianças em Palmas
Neuropsicóloga alerta para riscos de ansiedade e depressão em crianças tocantinenses pelo uso excessivo de smartphones — 2024

O uso precoce e prolongado de celulares por crianças em Palmas tem chamado a atenção de especialistas. Pais e educadores da capital tocantinense começam a perceber mudanças no comportamento dos pequenos, como irritabilidade, dificuldade de concentração e até quadros de ansiedade. O alerta vem de uma neuropsicóloga que acompanha casos na rede pública e privada, onde o problema já aparece em crianças a partir dos 6 anos.
O celular, que antes era visto apenas como um brinquedo ou ferramenta de comunicação, hoje é a principal porta de entrada para serviços digitais. Em Palmas, não é raro ver crianças de 8 ou 9 anos fazendo transferências via Pix, comprando jogos online ou passando horas em redes sociais. A facilidade de acesso a conteúdos inadequados para a idade e a exposição constante a estímulos rápidos têm gerado preocupação entre profissionais da saúde mental. "O cérebro em desenvolvimento não consegue filtrar tanta informação de uma vez. Isso pode sobrecarregar a criança e levar a quadros de estresse crônico", explica a neuropsicóloga Maria Clara Santos, que atende em clínicas particulares e também em projetos sociais na cidade.
Os pais, por sua vez, muitas vezes não sabem como lidar com a situação. Em bairros como o Jardim Aureny III e a 104 Sul, onde a internet é rápida e barata, o problema é ainda mais visível. "Muitos pais usam o celular como babá eletrônica. É mais fácil dar o aparelho para a criança ficar quieta do que buscar alternativas de lazer ou interação familiar", conta uma mãe que preferiu não se identificar. A falta de tempo para brincadeiras ao ar livre ou atividades presenciais, comuns nas gerações anteriores, também contribui para o cenário.
Na rede pública de saúde de Palmas, o tema ainda não é tratado como prioridade. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, não há programas específicos para orientar famílias sobre os riscos do uso excessivo de telas. "Nossos profissionais estão mais focados em doenças físicas e vacinação. A saúde mental infantil ainda precisa de mais atenção", admite um técnico da pasta. Enquanto isso, escolas particulares da capital já começaram a incluir palestras sobre o tema na grade de atividades. No Colégio Objetivo, por exemplo, uma psicóloga é chamada mensalmente para conversar com os alunos sobre o uso consciente da tecnologia.
O problema não é exclusivo de Palmas. Em Araguaína, no norte do estado, uma pesquisa da Universidade Federal do Tocantins mostrou que 62% das crianças entre 7 e 12 anos passam mais de 4 horas por dia em frente às telas. O estudo, que entrevistou 300 famílias, também revelou que 38% dos pais não estabelecem limites de uso. "As crianças estão perdendo a capacidade de brincar livremente. Isso afeta o desenvolvimento emocional e social", alerta o coordenador da pesquisa, professor Ricardo Mendes.
Para especialistas, a solução passa por uma combinação de educação digital e conscientização familiar. Em Palmas, a neuropsicóloga Maria Clara sugere que os pais comecem a monitorar o tempo de tela dos filhos e incentivem atividades offline, como esportes ou artes. "Não se trata de proibir, mas de ensinar a usar com responsabilidade. O celular não é o vilão, mas o uso inadequado pode trazer consequências graves", reforça. Enquanto isso, a prefeitura de Palmas não anunciou nenhuma ação concreta para o problema, mas a discussão já começa a ganhar espaço nas redes sociais e entre grupos de pais.
O que se vê hoje é um reflexo de uma sociedade cada vez mais conectada, onde as crianças são expostas a estímulos digitais desde cedo. Em um estado como o Tocantins, onde a infraestrutura de internet cresceu rapidamente nos últimos anos, o desafio é ainda maior. "Precisamos encontrar um equilíbrio. A tecnologia veio para ficar, mas cabe aos adultos guiar as crianças nesse processo", conclui a neuropsicóloga, sem oferecer soluções prontas, mas deixando claro que o debate precisa avançar.
Enquanto a discussão não avança, as famílias seguem buscando alternativas. Em bairros como o Taquaralto, algumas mães organizaram grupos de brincadeiras no parque para reduzir o tempo de tela das crianças. "É um começo. Não vai resolver tudo, mas já é um passo", diz uma das participantes. O desafio, agora, é transformar essa iniciativa isolada em uma política pública que atenda toda a cidade.