Mulheres assumem controle das finanças e redefinem futuro no Tocantins
Participação feminina em decisões financeiras cresce 23% no estado nos últimos dois anos segundo dados do Banco Central

O número de mulheres que administram suas próprias contas ou lideram orçamentos familiares no Tocantins subiu de 32% para 55% em dois anos. O dado, do Banco Central, mostra que a transformação não é apenas estatística: é uma mudança cultural que afeta desde o comércio local até as políticas públicas de crédito.
O salto aconteceu entre 2022 e 2024, período em que o estado registrou um aumento de 18 pontos percentuais no número de mulheres com contas bancárias ativas. Em Palmas, por exemplo, bairros como o Jardim Aureny III e o Centro já registram mais de 60% de titulares femininas em contas correntes. A tendência não se limita à capital. Em Araguaína, o crescimento foi de 22% no mesmo período, enquanto em Gurupi, a alta chegou a 19%.
O fenômeno reflete uma realidade que vai além dos números. Em feiras livres de Paraíso do Tocantins, comerciantes relatam que as mulheres passaram a negociar diretamente com fornecedores, cortando intermediários e aumentando a margem de lucro. Em Porto Nacional, associações de pequenos produtores rurais registram que as produtoras de mandioca e hortaliças agora controlam o destino do dinheiro arrecadado, antes gerenciado exclusivamente por homens.
A coordenadora de Políticas para Mulheres do governo estadual, Maria Helena Costa, lembra que o acesso ao crédito facilitado pelo programa "Mulher Empreendedora", do Banco do Brasil, foi um dos principais impulsionadores. "Antes, muitas mulheres não tinham nem conta bancária. Hoje, elas abrem empresas, financiam reformas e até compram imóveis", conta. Segundo ela, o programa já beneficiou 1.200 empreendedoras no Tocantins desde 2023, com empréstimos que somam R$ 45 milhões.
No setor de serviços, a mudança também é visível. Em clínicas de saúde em Gurupi, por exemplo, donas de negócios agora decidem sozinhas sobre investimentos em equipamentos ou contratação de funcionários. A dentista Carla Rodrigues, 38 anos, abriu sua clínica há três anos com um empréstimo de R$ 80 mil. "Eu fazia o controle no papel, mas não tinha noção de como o dinheiro rendia. Hoje, consigo planejar até a expansão do consultório", diz.
A Secretaria da Fazenda do Tocantins aponta outro efeito: a redução de 12% nas dívidas de mulheres inadimplentes desde 2022. O órgão atribui o resultado à maior participação em cursos de educação financeira oferecidos pelo Sebrae e pela própria secretaria. "Muitas chegavam aqui com contas atrasadas porque não entendiam como funcionava o sistema. Agora, elas negociam sozinhas e até cobram juros menores", explica o coordenador de Educação Fiscal, Paulo Vitor Mendes.
Para as mulheres que ainda não se sentem seguras, iniciativas como o "Círculo de Finanças Femininas" em Araguaína oferecem encontros mensais para trocar experiências. A economista Ana Luiza Silva, que coordena o grupo, conta que as participantes aprendem desde a diferença entre CDB e poupança até como negociar com bancos. "O medo de errar é grande, mas quando uma consegue, as outras seguem o exemplo", diz.
O impacto econômico já começa a ser sentido nas prefeituras. Em Palmas, a Secretaria Municipal de Planejamento informou que o número de mulheres que solicitam alvarás para abrir negócios cresceu 30% em 2024. Em Porto Nacional, a prefeitura criou um programa específico para incentivar empreendimentos femininos, com linhas de crédito subsidiadas.
O próximo passo, segundo a coordenadora Maria Helena Costa, é ampliar o acesso ao microcrédito para mulheres rurais. "Elas produzem, mas muitas vezes não conseguem vender diretamente. Precisamos de políticas que conectem a produção ao mercado", afirma. O governo estadual estuda parcerias com cooperativas para viabilizar isso até o fim do ano.
Enquanto isso, nas ruas, a mudança segue visível. Em feiras de Gurupi, mulheres que antes vendiam apenas para atravessadores agora anunciam seus produtos com preços fixos e até delivery. Em Araguaína, donas de padarias e lojas de roupas relatam que os maridos passaram a perguntar antes de fazer compras grandes. "Eles perceberam que agora a decisão é compartilhada", conta uma comerciante do setor de vestuário.
A transformação, no entanto, ainda tem desafios. Em algumas cidades do Bico do Papagaio, como Augustinópolis, a participação feminina no controle financeiro ainda não chega a 40%. A prefeitura local diz que trabalha com associações comunitárias para reverter o quadro, mas admite que a cultura local ainda é um obstáculo.