MPF denuncia faculdade por compra de corpos em hospital psiquiátrico
Ministério Público Federal acusa instituição de Minas Gerais de adquirir 105 cadáveres entre 1971 e 1975

O Ministério Público Federal (MPF) moveu uma ação contra uma faculdade de medicina de Minas Gerais por supostamente comprar corpos de pacientes de um hospital psiquiátrico entre 1971 e 1975. Segundo a denúncia, ao menos 105 cadáveres de internos foram vendidos à instituição para aulas práticas de anatomia. A faculdade, que não teve o nome revelado, é acusada de participar de um esquema que explorava a vulnerabilidade de pessoas internadas em um local marcado por condições precárias.
O Hospital Colônia, onde os corpos foram obtidos, funcionou durante décadas como um dos principais centros de internação psiquiátrica do estado. Relatos da época descrevem superlotação, falta de recursos e maus-tratos aos pacientes. A compra dos cadáveres teria sido feita de forma sistemática, com a conivência de funcionários do hospital, que recebiam valores em troca dos corpos. A faculdade, por sua vez, teria utilizado os cadáveres em aulas de anatomia sem questionar a origem dos corpos, segundo o MPF.
A ação do MPF se baseia em documentos e depoimentos que comprovariam a transação ilegal. Entre as provas estão registros hospitalares que listam os nomes dos internos cujos corpos foram transferidos para a faculdade. A instituição de ensino, que na época não tinha regulamentação clara sobre a origem de cadáveres para pesquisa, agora enfrenta uma investigação que pode resultar em indenizações e punições administrativas.
Os familiares dos pacientes, muitos deles internados à força ou sem diagnóstico preciso, só descobriram a destinação dos corpos décadas depois. A revelação gerou revolta em grupos de direitos humanos, que classificam o caso como uma violação grave dos direitos humanos. "É inaceitável que pessoas em situação de vulnerabilidade tenham seus corpos comercializados sem consentimento", afirmou um advogado que acompanha o caso.
A faculdade negou irregularidades e afirmou que seguiu os procedimentos legais da época. No entanto, o MPF sustenta que a instituição sabia ou deveria saber da ilegalidade da transação. A Justiça agora analisará as provas apresentadas para decidir se houve crime ou apenas uma falha burocrática do passado.
O caso reacende discussões sobre ética médica e a necessidade de regulamentações mais rígidas para o uso de cadáveres em pesquisas. Especialistas em bioética alertam que, mesmo em períodos de pouca fiscalização, princípios básicos de dignidade humana devem ser respeitados. A ação do MPF pode servir como precedente para revisão de casos semelhantes em outros estados.
A faculdade, que já não existe mais sob a mesma denominação, enfrenta ainda a possibilidade de ter seu nome vinculado a episódios de exploração. A Justiça deve ouvir testemunhas e analisar documentos antes de definir se há responsabilidade civil ou criminal. Enquanto isso, as vítimas e suas famílias buscam respostas sobre o destino final de seus entes queridos.