Motorista de app enfrenta rombo no bolso com consertos de carro
Brasiliense que trabalha com aplicativos de transporte tem prejuízo de R$ 2,5 mil em conserto não planejado em uma semana
Motorista de aplicativo em Brasília viu o orçamento do mês ir por água abaixo quando um problema mecânico inesperado no carro jogou uma conta de R$ 2,5 mil no colo dela. O que começou como um dia comum de trabalho virou pesadelo financeiro em questão de horas, quando um vazamento de óleo se somou a uma pane no motor. A história, que poderia ser de qualquer profissional que vive do transporte por apps, expõe uma realidade dura para quem depende da renda diária para pagar as contas.
O susto veio na última semana, quando a motorista — que prefere não ser identificada — notou que o carro começava a apresentar sinais de superaquecimento. Em pouco tempo, o cheiro de queimado invadiu o veículo, e o motor começou a falhar. Ao parar em uma oficina próxima, o diagnóstico foi claro: vazamento de óleo e problemas no sistema de arrefecimento. O conserto, que não estava no planejamento, consumiu quase todo o lucro do mês. "Eu trabalho de segunda a domingo para pagar as contas, mas quando o carro quebra, não tem como fugir. A oficina não aceitou parcelar, e eu tive que tirar do meu bolso", contou a motorista, que atua há dois anos com aplicativos de transporte.
Esse tipo de imprevisto não é raro entre motoristas de apps, que muitas vezes trabalham com carros alugados ou financiados. Em Brasília, onde a frota de veículos usados para transporte por aplicativo é grande, a falta de reserva financeira deixa muitos profissionais à mercê de despesas emergenciais. Segundo dados da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Abmt), cerca de 30% dos motoristas de apps no Brasil já passaram por situações semelhantes, com gastos não planejados que chegam a comprometer até 40% da renda mensal.
A motorista brasiliense não é exceção. Com a conta do mecânico em mãos, ela agora precisa reorganizar suas finanças para não atrasar o aluguel e as contas de casa. "Eu já tinha que pagar R$ 1,2 mil de aluguel e mais R$ 800 de financiamento do carro. Agora, com essa despesa extra, vou ter que trabalhar mais horas para cobrir", disse. A situação é ainda mais complicada porque, em muitos casos, os motoristas não têm direito a benefícios trabalhistas, como auxílio-doença ou seguro desemprego, caso o veículo fique parado por tempo indeterminado.
O caso dela não é isolado. Em todo o país, motoristas de apps relatam dificuldades para lidar com despesas inesperadas, especialmente quando o veículo é a única fonte de renda. Em São Paulo, por exemplo, uma pesquisa da Proteste — Associação Brasileira de Defesa do Consumidor — mostrou que 65% dos motoristas entrevistados não têm reserva financeira para emergências. No Tocantins, onde o número de motoristas de apps cresceu nos últimos anos, a realidade não é diferente. Com a expansão do transporte por aplicativo, muitos profissionais entram no ramo sem avaliar os riscos de uma manutenção não planejada.
Para quem vive do volante, a dica é simples, mas nem sempre fácil de seguir: guardar uma parte da renda para imprevistos. "A gente sempre acha que nada vai acontecer, mas quando acontece, é um baque. Se eu tivesse economizado um pouco por mês, não estaria nessa situação", admitiu a motorista de Brasília. Especialistas em finanças pessoais recomendam que profissionais autônomos reservem pelo menos 10% da renda mensal para emergências, mas a realidade mostra que muitos não conseguem.
A história dela serve de alerta não só para quem trabalha com apps, mas para qualquer profissional que dependa de um veículo para sobreviver. Em um mercado cada vez mais competitivo, onde a corrida por passageiros é constante, o custo de um conserto pode ser a diferença entre pagar as contas em dia ou cair no vermelho. Enquanto isso, a motorista segue trabalhando, torcendo para que o carro não dê outro problema tão cedo.
A reportagem tentou contato com as plataformas de transporte por aplicativo para comentar o caso, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.