Polícia mira rede de armas que saía do Tocantins para facções
Megaoperação investiga esquema de tráfico interestadual com foco em remessas de armamentos do estado para grupos criminosos

A Polícia Civil do Tocantins deflagrou na manhã desta quarta-feira uma megaoperação para desmantelar uma rede que, segundo as investigações, transportava armas de dentro do estado para facções criminosas em outros estados. A ação, batizada de "Operação Fogo Cruzado", envolve policiais civis e militares, além de agentes da Polícia Federal, e mira pontos estratégicos em três cidades tocantinenses: Palmas, Araguaína e Gurupi.
As investigações começaram há oito meses, quando a Delegacia de Repressão a Crimes contra o Patrimônio (DRCP) da Polícia Civil identificou movimentações suspeitas de armas de fogo saindo do Tocantins com destino a estados do Nordeste e Sudeste. De acordo com o delegado responsável pela operação, as armas eram adquiridas ilegalmente em feiras livres, armarinhos e até mesmo em oficinas mecânicas da região, onde comerciantes sem fiscalização vendiam munição e acessórios para civis sem registro. Os alvos principais são suspeitos de atuar como intermediários, comprando armas em nome de terceiros e repassando para grupos criminosos organizados.
Os policiais já apreenderam sete armas de fogo, entre pistolas, espingardas e fuzis, além de munição e documentos que comprovam a ligação entre os suspeitos e facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. Em Palmas, a ação concentrou-se em bairros como Taquaralto e Centro, onde funcionavam pontos de venda irregulares. Em Araguaína, a Polícia Civil cumpriu mandados em dois endereços no Setor Central e no Setor Oeste, enquanto em Gurupi, a operação ocorreu em uma oficina mecânica na zona rural.
A Polícia Civil informou que os suspeitos usavam veículos adaptados para esconder as armas, como compartimentos secretos em caminhonetes e malas com fundo falso. Um dos alvos, preso em flagrante, confessou que recebia encomendas de facções do Maranhão e do Pará, pagas antecipadamente via transferência bancária ou depósito em conta. A polícia ainda investiga se há ligação com casos recentes de assaltos a caixas eletrônicos e roubos de carga no estado, já que algumas armas apreendidas tinham numeração raspada, técnica comum em crimes violentos.
Para a população tocantinense, o esquema representa um alerta sobre a facilidade com que armas circulam no estado, mesmo com a fiscalização da Polícia Federal e do Exército. Em 2023, o Tocantins registrou um aumento de 12% nos crimes com uso de armas de fogo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. A megaoperação chega em um momento em que o governo estadual promete investir R$ 5 milhões em equipamentos para a Força Tática da Polícia Militar, além de reforçar a fiscalização em fronteiras com estados vizinhos.
A Polícia Civil destacou que a operação não tem relação com casos recentes de violência urbana em Palmas, como o aumento de homicídios no setor Bueno ou os confrontos entre facções no interior. No entanto, a apreensão de armas de grosso calibre, como fuzis, acende o sinal amarelo para a segurança pública. "Essas armas não são usadas apenas em crimes organizados, mas também em assaltos a bancos e transporte de valores", afirmou um investigador que participou da ação.
Os próximos passos da polícia incluem a análise de depoimentos e a busca por novos suspeitos, além da colaboração com a Receita Federal para rastrear as movimentações financeiras dos envolvidos. A Polícia Federal já confirmou que vai auxiliar nas investigações, especialmente para identificar a origem das armas e os canais de distribuição. Enquanto isso, comerciantes de armarinhos em Palmas e Araguaína relatam que a fiscalização da Polícia Federal aumentou nas últimas semanas, com agentes vistoriando estoques e exigindo documentação em dia.
A operação também levanta questionamentos sobre a eficácia do Sistema Nacional de Armas (SINARM) no Tocantins. Segundo dados do Exército, o estado tem mais de 15 mil armas registradas, mas especialistas estimam que o número de armas ilegais pode chegar a 50 mil, considerando o mercado paralelo. A falta de fiscalização em feiras livres e a demora na análise de registros pelo Exército são apontadas como brechas que facilitam o tráfico.
Enquanto a polícia trabalha para desmantelar a rede, moradores de bairros como o Taquaralto, em Palmas, relatam medo de que a violência aumente com a circulação de armas ilegais. "A gente já vive com medo de assalto, imagina se essas armas caem na mão de bandidos de fora", disse um comerciante do local. A operação, que deve se estender por mais 48 horas, é mais uma entre as várias ações recentes que mostram como o tráfico de armas afeta diretamente o cotidiano dos tocantinenses, desde a segurança nas ruas até a economia local.