Médico de Peixe recebe despedida emocionante de crianças
Thiago Arruda deixou posto em Lagoa do Romão após quatro anos; moradores se despediram com cartazes e canções

Quatro anos de dedicação na zona rural de Peixe acabaram com uma despedida que emocionou até os mais resistentes. Crianças do povoado Lagoa do Romão, no sul do Tocantins, se reuniram para homenagear o médico Thiago de Moura Arruda com cartazes coloridos e canções na hora de sua saída do posto de saúde, em abril deste ano. A cena simples, mas carregada de afeto, marcou a rotina de um profissional que se tornou referência na comunidade.
Thiago não escondeu a emoção ao relembrar os momentos vividos ali. "Sair do Romão tem sido como quando um filho sai do interior para tentar a vida na cidade. Chorei de saudade por semanas", confessou o médico, que assumiu uma nova função em outra unidade de saúde. A comparação não é exagerada: para quem vive em comunidades pequenas como Lagoa do Romão, a relação com o profissional de saúde vai muito além do atendimento. É uma troca diária, feita de confiança, paciência e, muitas vezes, de laços que duram anos.
O posto onde Thiago atuou fica a cerca de 50 quilômetros do centro de Peixe, uma distância que não impediu que moradores de várias comunidades vizinhas buscassem seus serviços. Segundo relatos de moradores, o médico era conhecido por atender casos simples e graves com a mesma atenção, um detalhe que fazia diferença em uma região onde o acesso à saúde ainda é um desafio. "Aqui, o médico não é só quem receita remédio. É quem escuta, quem orienta, quem acompanha a família", contou uma moradora, que preferiu não se identificar.
A despedida das crianças não foi planejada como um ato oficial, mas sim como um gesto espontâneo de gratidão. Cartazes com desenhos de corações e frases como "Sinto sua falta, doutor" foram exibidos enquanto o médico fazia seus últimos atendimentos. "O amor construído ali é vivo", disse Thiago, destacando que a relação com os pacientes não termina quando se muda de posto. Para os moradores, a partida de um profissional como ele deixa uma lacuna difícil de preencher, especialmente em um local onde a rotatividade de médicos é alta.
A Secretaria Municipal de Saúde de Peixe confirmou que a vaga deixada por Thiago ainda não foi preenchida. A prefeitura informou que o processo de contratação está em andamento, mas não há previsão para a chegada de um novo médico. Enquanto isso, os moradores seguem dependendo de atendimentos esporádicos de profissionais que vêm de outras cidades, uma realidade que afeta não só Lagoa do Romão, mas dezenas de povoados espalhados pelo sul do Tocantins.
Para Thiago, a experiência em Lagoa do Romão foi um divisor de águas. "Aprendi mais do que ensinei. Aqui, a medicina é feita de gente, de histórias, de gente que não tem para onde correr", afirmou. A saída do posto não significou o fim do vínculo com a comunidade. "Vou levar comigo a certeza de que, mesmo longe, o que construímos ali continua vivo", completou.
Enquanto a prefeitura de Peixe busca um substituto, a população local se organiza para cobrar melhorias na estrutura do posto. Moradores relatam falta de medicamentos básicos e dificuldades para agendar consultas, problemas que se agravam com a ausência de um médico fixo. "A gente sabe que não é fácil, mas a saúde não pode esperar", disse um agricultor que depende do posto para cuidar da família.
A história de Thiago e Lagoa do Romão é um retrato do que acontece em centenas de comunidades tocantinenses. Em um estado onde a saúde pública enfrenta desafios constantes, a presença de profissionais comprometidos faz toda a diferença. Enquanto a prefeitura não anuncia a chegada de um novo médico, os moradores seguem na expectativa, torcendo para que a próxima despedida não seja tão dolorosa quanto a que marcaram para Thiago.