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Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morre aos 56 anos

A franco-iraniana que conquistou o mundo com sua graphic novel faleceu pouco mais de um ano após a morte do marido.

📝 Redação CCN04 de junho de 2026 às 10:55👁 2 leituras
Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morre aos 56 anos

Marjane Satrapi, a autora franco-iraniana que conquistou leitores em todo o planeta com sua graphic novel Persépolis, morreu aos 56 anos. A confirmação chegou através de seus familiares na quinta-feira (4), em comunicado à agência AFP. Segundo a família, ela faleceu de desgosto, pouco mais de um ano após perder Mattias Ripa, seu marido e, como descrevem, o amor de sua vida.

A morte de Satrapi marca o fim de uma trajetória marcada pela transformação de dor pessoal em arte que tocou milhões. Nascida em Teerã em 1969, ela cresceu em meio aos turbilhões políticos do Irã pós-revolução. A Revolução Islâmica de 1979 não foi apenas um evento que ela leu nos livros — foi parte de sua infância, moldando sua forma de enxergar o mundo e o poder.

Aos 14 anos, seus pais a enviaram para a Europa. Não foi uma mudança comum de cidade ou país. Foi um exílio. A adolescente deixou para trás Teerã para viver entre dois mundos, carregando duas identidades que nem sempre conversavam uma com a outra. Essa experiência de desenraizamento, de estar entre culturas, seria a matéria-prima de suas obras futuras.

Persépoilis nasceu dessa vivência. Publicada entre 1999 e 2003, a obra começou como série em francês e se transformou em fenômeno global. Não era apenas um livro de quadrinhos — era um testemunho direto sobre infância, adolescência e a busca por identidade em tempos de turbulência. A narrativa visual de Satrapi, com seus desenhos em preto e branco, conseguia comunicar o que havia de mais universal na experiência particular de uma menina iraniana durante a revolução.

A graphic novel conquistou prêmios internacionais e se tornou obrigatória em escolas ao redor do mundo. Leitores que nunca pisaram no Irã compreendiam, através das páginas de Satrapi, como era viver entre duas culturas, como era ser jovem durante um período de repressão, como era carregar questões políticas e pessoais ao mesmo tempo. A obra atravessou idiomas e fronteiras porque Satrapi falava de algo que transcendia documentos históricos: a experiência viva de estar vivo naquele tempo e lugar.

Além de Persépolis, ela produziu outras obras que continuaram explorando temas similares — identidade, exílio, política e humanidade. Sua carreira demonstrou que histórias pessoais, quando contadas com honestidade, ganham relevância universal. Ela não era apenas uma autora; era uma ponte entre o Irã que viveu e o mundo que a acolheu.

A morte do marido Mattias Ripa, ocorrida um pouco mais de um ano antes, deixou um vazio que Satrapi aparentemente não conseguiu preencher. A família não elabora os detalhes, mas a escolha de palavras — "faleceu de desgosto" — sugere uma morte por falta de vontade, pelo peso da perda. Essa descrição, em si, parece ecoar a profundidade emocional que caracterizava a obra de Satrapi: a capacidade de nomear sentimentos complexos e quase intraduzíveis.

Para leitores tocantinenses e brasileiros que cresceram com Persépolis como referência de leitura, a notícia toca algo pessoal. A obra estava presente em bibliotecas escolares, em listas de livros recomendados, em discussões sobre narrativa visual e política. Gerações aprenderam sobre o Irã através de seus olhos.

A morte de Satrapi encerra uma voz que foi fundamental para humanizar histórias que poderiam ter permanecido abstratas ou distantes. Ela provou que histórias em quadrinhos podiam ser profundas, políticas e universalmente humanas. Seu legado permanece nas prateleiras, nas mentes dos que leram, e na compreensão mais compassiva que milhões desenvolveram sobre experiências diferentes das suas.