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Brasília esquecida: maioria não lembra nomes de seus representantes

Pesquisa Datafolha revela que 68% não citam deputados federais e 75% não mencionam senadores em exercício

📝 Redação CCN29 de junho de 2026 às 11:29👁 9 leituras
Brasília esquecida: maioria não lembra nomes de seus representantes

A democracia brasileira enfrenta um paradoxo curioso: quanto mais poder acumulam, menos visíveis se tornam os políticos que ocupam cargos no Congresso Nacional. Um levantamento recente do Datafolha jogou luz sobre essa realidade ao mostrar que a maioria dos brasileiros não consegue sequer citar o nome de seus deputados federais ou senadores. Segundo a pesquisa, 68% dos entrevistados não mencionaram nenhum deputado federal em exercício, enquanto 75% não recordaram o nome de um único senador. Os dados, coletados em outubro de 2023, reforçam uma tendência que preocupa analistas políticos: a desconexão entre representantes e representados.

O estudo não mediu apenas o esquecimento, mas também a falta de familiaridade com figuras que, teoricamente, deveriam ser conhecidas por quem as elegeu. Em um país com 513 deputados federais e 81 senadores, a ausência de nomes na memória popular sugere um problema estrutural. Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que a rotatividade de mandatos, a complexidade dos cargos e a distância física entre Brasília e os estados contribuem para esse cenário. No Tocantins, por exemplo, onde a representação no Congresso é composta por três deputados federais e dois senadores, a situação não é diferente. Moradores de Palmas e do interior relatam dificuldade em identificar quem são seus representantes, mesmo em períodos de votações importantes, como a aprovação do Orçamento da União.

Para o cidadão comum, a consequência prática dessa desconexão é clara: menos fiscalização sobre os atos dos políticos e menor pressão por transparência. Um morador de Gurupi, no sul do Tocantins, resumiu o sentimento de muitos ao dizer que "só lembra dos deputados quando tem alguma denúncia na TV". A falta de identificação com os nomes impede que a população exija prestações de contas ou participe de audiências públicas, mecanismos essenciais para o controle social. No Congresso, a ausência de cobrança pode facilitar práticas como a aprovação de emendas parlamentares sem critérios transparentes ou a aprovação de projetos sem debate público.

Os números do Datafolha não deixam dúvidas sobre a magnitude do problema. Entre os 68% que não citaram deputados federais, 42% disseram não saber sequer quantos representantes existem por estado. Já entre os 75% que não mencionaram senadores, 35% afirmaram não entender a diferença entre as funções de cada casa legislativa. A pesquisa foi realizada com 2.071 pessoas em 110 municípios, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou menos. Os dados foram divulgados em novembro de 2023, mas ganham relevância agora diante das eleições municipais de 2024, quando a população será chamada novamente às urnas.

O Congresso, por sua vez, tem reagido com iniciativas pontuais para aproximar os parlamentares da população. Projetos como a criação de canais digitais para prestação de contas e audiências virtuais foram anunciados, mas ainda enfrentam resistência de setores que preferem manter o distanciamento. No Tocantins, a Assembleia Legislativa promoveu recentemente uma série de encontros com prefeitos e vereadores para discutir a atuação dos deputados estaduais, mas a participação popular foi baixa. A pergunta que fica é: como reverter esse quadro de esquecimento sem que haja um esforço conjunto entre mídia, sociedade civil e instituições públicas?

Enquanto isso, nas ruas de Palmas, a cena se repete. Em frente ao Palácio Araguaia, sede do governo estadual, um estudante de direito confessou que só conhece o nome de um deputado federal porque ele aparece com frequência em notícias sobre corrupção. "O resto é tudo igual", disse, enquanto folheava um jornal local. A frase resume o desafio: em um sistema político cada vez mais complexo, a simplificação da informação pode ser a chave para reconectar representantes e representados. Até lá, Brasília continuará a ser um nome familiar, mas seus ocupantes, não.