AO VIVO
Economia

Home office prejudica mais que IA na contratação de jovens

Estudo do Federal Reserve mostra que trabalho remoto afasta empresas de contratar recém-formados sem experiência

📝 Redação CCN02 de junho de 2026 às 10:29👁 2 leituras
Home office prejudica mais que IA na contratação de jovens

O trabalho remoto virou, paradoxalmente, uma barreira para quem está começando a carreira. Um estudo divulgado pelo Federal Reserve Bank de Nova York nesta segunda-feira revelou que o aumento do trabalho em casa desde a pandemia é o principal culpado pelas maiores taxas de desemprego entre recém-formados — não a inteligência artificial, como muitos temiam.

A pesquisa comparou dados de contratação antes e depois que o home office se consolidou nas empresas brasileiras e americanas. O resultado é claro: companhias ficaram mais relutantes em contratar jovens sem experiência profissional. E a razão é simples: é mais difícil treinar alguém remotamente.

Para entender por que isso acontece, é preciso voltar ao cenário pós-2020. Quando a pandemia forçou as empresas a funcionar de casa, muitas descobriram que conseguiam manter a produtividade sem escritórios lotados. Isso abriu caminho para uma transformação estrutural: redução de custos com infraestrutura, flexibilização de horários, contratações em qualquer lugar do Brasil ou do mundo.

Mas essa flexibilidade tem um lado B. Treinar um funcionário novo exige paciência, mentoria, presença física — ou pelo menos uma relação mais próxima e frequente. Quando tudo é assíncrono, quando a pessoa não tem um colega ao lado para tirar dúvidas rápidas, o custo dessa capacitação sobe. E empresas perceberam isso.

O resultado prático: vagas para iniciantes desapareceram ou ficaram mais raras. Quem tem dois ou três anos de experiência tem vantagem clara. Quem está saindo da faculdade, como Connor Scott, 24 anos, e Zoe Lloyd, 21 anos — fotografados estudando em uma cafeteria de Flagstaff, no Arizona — enfrenta um mercado cada vez mais hostil.

Para o tocantinense que está terminando o ensino superior agora, essa realidade é ainda mais dura. Estados menores, com menos oportunidades locais, dependem do mercado de trabalho nacional ou remoto. Mas se empresas de São Paulo ou Rio de Janeiro preferem contratar profissionais com experiência, as portas fecham mais rápido.

O estudo do Federal Reserve não diz simplesmente que jovens estão desempregados. Mostra um mecanismo específico: empresas com modelos de trabalho remoto ou híbrido reduzem ofertas para quem nunca trabalhou profissionalmente. Elas apostam em gente que já sabe como funcionar em ambiente virtual, que conhece ferramentas de comunicação digital, que consegue ser produtiva sem supervisão presencial.

A inteligência artificial, curiosamente, nem é o vilão dessa história — pelo menos não nesta conclusão. A IA pode substituir funções, sim, mas não está sendo usada como desculpa principal para não contratar juniores. O problema verdadeiro é estrutural: as empresas mudaram de forma, e o mercado de entrada não acompanhou essa mudança.

As consequências começam a aparecer agora. Uma geração de recém-formados fica mais tempo desempregada ou subempregada, aceitando posições abaixo de sua qualificação. Isso afeta não apenas o bolso dessas pessoas, mas também sua confiança profissional. Quem esperava entrar no mercado aos 21, 22 anos e construir uma carreira vê esse cronograma desaparecer.

Para empresas, há um risco de longo prazo: falta de renovação geracional. Sem contratar juniores agora, quem será o sênior daqui a dez anos? Quem vai substituir profissionais que se aposentam? O problema pode virar uma crise de falta de mão de obra qualificada no futuro próximo.

O que o estudo sugere é que a solução não passa por combater a IA, mas por rethink de como as empresas recrutam e treinam recém-formados em modelos remotos. Alguns estão experimentando mentoria estruturada, onboarding mais denso nos primeiros meses, ou híbrido obrigatório para juniores. Mas essas ainda são exceções.

Enquanto isso, jovens como Connor e Zoe continuam nas cafeterias, estudando, esperando uma oportunidade que deveria ser garantida: a chance de começar.