Joesley Batista se reúne com Trump antes de decisão sobre carne nos EUA
Acionista da JBS conversou com o ex-presidente norte-americano dias antes de medida comercial sobre importações de carne bovina ser anunciada 31/07/2023 - Washington, EUA

Um dos principais nomes por trás da JBS, uma das maiores empresas do setor de proteína animal no mundo, esteve com Donald Trump em uma conversa privada antes de o governo dos Estados Unidos anunciar uma medida que afeta diretamente as importações de carne bovina. A informação, revelada pelo *The Wall Street Journal* nesta segunda-feira, levanta questionamentos sobre possíveis articulações entre setor privado e poder público em um momento sensível para o comércio exterior.
A reunião ocorreu em um contexto de tensão comercial entre os EUA e outros países produtores de carne, com discussões recorrentes sobre barreiras tarifárias e cotas de importação. Joesley Batista, acionista e membro do conselho da JBS, teria discutido com Trump — ainda em sua condição de pré-candidato à presidência — temas relacionados ao setor, segundo a publicação. O encontro antecedeu em poucos dias o anúncio de uma nova política comercial que restringiria temporariamente a entrada de carne bovina estrangeira nos EUA, medida que afeta diretamente exportadores como o Brasil.
A JBS, que tem operações globais e é uma das maiores compradoras de gado do mundo, tem interesse direto nesse tipo de decisão. A empresa, que já foi alvo de investigações por práticas comerciais no passado, negou qualquer relação entre a reunião e a medida anunciada. Em comunicado oficial, a companhia afirmou que Batista participou de eventos públicos e privados com figuras políticas ao longo dos anos, mas que não houve discussões sobre políticas comerciais específicas durante o encontro com Trump.
O governo norte-americano, por sua vez, não se pronunciou sobre o teor da conversa ou se a medida anunciada teve relação com o diálogo. A política, que entrou em vigor na semana passada, estabelece cotas para importação de carne bovina até setembro, com o objetivo de proteger produtores locais. A decisão foi recebida com críticas por países como o Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, que vê a medida como uma barreira injustificada ao livre comércio.
Para o setor brasileiro, a restrição temporária pode significar prejuízos financeiros, já que os EUA são um dos principais destinos da carne in natura e processada do país. Em 2022, o Brasil exportou mais de US$ 2 bilhões em carne bovina para os Estados Unidos, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). A medida, embora limitada no tempo, acende um alerta sobre a volatilidade das regras comerciais e a influência de setores privados em decisões governamentais.
A revelação da reunião também reacende debates sobre a transparência em relações entre empresas e figuras políticas, especialmente em um ano eleitoral nos EUA. Trump, que busca retornar à Casa Branca, tem histórico de defender políticas protecionistas, o que pode explicar o interesse da JBS em manter canais de diálogo abertos. A empresa, por sua vez, enfrenta pressões de acionistas e reguladores para evitar qualquer indício de favorecimento em negociações comerciais.
Enquanto o governo norte-americano não detalha os critérios da nova política, o setor exportador brasileiro já estuda alternativas para minimizar os impactos. A Federação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) anunciou que irá monitorar de perto as consequências da medida e buscará diálogo com autoridades dos EUA para garantir que as exportações não sejam prejudicadas de forma permanente. A entidade também avalia a possibilidade de recorrer a instâncias internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), caso a restrição se estenda além do previsto.
Ainda não há previsão de quando a medida será revista ou se novas negociações serão abertas. O que fica claro, no entanto, é que o episódio coloca em xeque não apenas as relações comerciais entre Brasil e EUA, mas também a forma como interesses privados e públicos se entrelaçam em decisões que afetam economias inteiras.