IA no trabalho: mais controle pode esgotar, menos pode aliviar
Estudo com 1.500 profissionais nos EUA mostra que supervisão excessiva de ferramentas de IA aumenta fadiga mental, enquanto automação de tarefas repetitivas reduz burnout

A inteligência artificial está chegando aos escritórios e fábricas com promessas de otimizar rotinas, mas um estudo recente com quase 1.500 trabalhadores americanos revela um paradoxo: quando mal aplicada, a IA pode sobrecarregar em vez de facilitar. A pesquisa, publicada recentemente, aponta que o excesso de supervisão por sistemas automatizados eleva a carga mental dos funcionários, enquanto o uso da tecnologia para eliminar tarefas repetitivas tem efeito contrário, diminuindo o esgotamento profissional.
O levantamento, conduzido por pesquisadores de universidades americanas, analisou como diferentes formas de implementação da IA impactam a saúde mental no ambiente de trabalho. Os resultados mostram que quando os colaboradores sentem que são constantemente monitorados por algoritmos — seja em metas de produtividade, horários ou até pausas — a pressão aumenta. "As pessoas passam a se preocupar não apenas com o resultado do trabalho, mas também com a forma como a máquina está interpretando cada passo", explica um dos autores do estudo. Por outro lado, quando a IA é usada para assumir funções burocráticas ou operacionais, como preenchimento de relatórios ou triagem de e-mails, os trabalhadores relatam menos cansaço e mais foco nas atividades que exigem criatividade ou tomada de decisão.
Para quem vive no Tocantins, onde o setor de serviços e a indústria já começam a adotar soluções digitais, os achados do estudo servem de alerta. Em Palmas, por exemplo, empresas de call center e logística têm investido em chatbots e sistemas de gestão automatizada. "Aqui, a gente vê casos de funcionários que se sentem pressionados porque a IA está cronometrando cada atendimento ou cada entrega", conta um gerente de uma dessas empresas, que preferiu não se identificar. Ele relata que, em alguns setores, a ferramenta é usada para monitorar pausas e até o tempo gasto no banheiro, o que, segundo o estudo, pode gerar ansiedade. "Já em áreas onde a IA só pega os dados repetitivos, como lançar notas fiscais, a equipe chega ao fim do dia menos exausta", completa.
Os números da pesquisa reforçam a diferença entre os dois cenários. Entre os trabalhadores que relataram alta supervisão por IA, 68% disseram sentir fadiga mental constante, contra 32% daqueles que usavam a ferramenta apenas para automatizar tarefas. Além disso, 55% dos entrevistados que lidavam com sistemas de monitoramento frequente admitiram procurar formas de evitar a supervisão, como desligar notificações ou até mesmo ignorar alertas da ferramenta. Já entre os que tinham a IA como aliada em processos repetitivos, 72% afirmaram que o burnout diminuiu nos últimos seis meses.
O estudo não é o primeiro a chamar atenção para os riscos da IA no trabalho. Em 2023, uma pesquisa da Universidade de Stanford já havia mostrado que funcionários de empresas com alta adoção de monitoramento digital tinham 20% mais chances de desenvolver ansiedade. No entanto, o novo levantamento vai além ao mapear como a forma de uso da tecnologia define se ela será uma aliada ou uma vilã. "Não é a ferramenta em si que define o impacto, mas como ela é implementada", destaca outro pesquisador envolvido no projeto. Ele lembra que, em muitos casos, a resistência dos funcionários não é contra a IA, mas contra a falta de transparência em como ela está sendo usada.
Para o Tocantins, onde a digitalização ainda caminha a passos lentos em alguns setores, os dados sugerem que é preciso equilibrar inovação e bem-estar. Empresas que estão começando a adotar essas tecnologias podem evitar erros comuns, como sobrecarregar equipes com relatórios automáticos ou substituir interações humanas por algoritmos sem critério. "Aqui, a gente tenta mostrar que a IA deve ser uma extensão do trabalho, não um fiscal", diz um consultor de inovação que atua em Palmas. Ele conta que, em parcerias com indústrias locais, tem recomendado que a implementação seja gradual, com treinamentos para que os funcionários entendam o papel da ferramenta e não se sintam vigiados.
O próximo passo dos pesquisadores é ampliar o estudo para outros países, incluindo o Brasil, onde a cultura de trabalho e a relação com a tecnologia podem apresentar diferenças significativas. Enquanto isso, no Tocantins, a discussão já começa a ganhar espaço em fóruns de gestão e até em sindicatos. "A gente não pode deixar que a pressa por resultados transforme a IA em mais um problema para os trabalhadores", alerta um representante de uma federação de trabalhadores do estado. A pergunta que fica é: até que ponto a automação está realmente a serviço das pessoas, e não o contrário.