Agro enfrenta queda após El Niño e fertilizantes mais caros
Após crescimento no início do ano, setor deve perder força nos próximos meses com clima adverso e custos de produção elevados
A agropecuária brasileira começou 2024 em alta, crescendo 2% e puxando a economia do país no primeiro trimestre. Mas esse desempenho inicial esconde uma realidade que preocupa produtores em todo o país: o setor deve perder força nos próximos meses e entrar em trajetória de queda até 2027.
O cenário tenebroso é pressão por dois fatores que se unem como uma tempestade. De um lado, o El Niño traz risco real de perdas nas colheitas. Do outro, os custos de produção — especialmente fertilizantes — seguem pressionando as margens dos agricultores.
Para quem trabalha a terra no Tocantins e em outras regiões produtoras, essa combinação é conhecida. O El Niño afeta padrões de chuva, podendo tanto trazer excesso de água em algumas áreas quanto provocar secas em outras. E quando a colheita sofre, o agricultor precisa compensar com mais insumos, incluindo os fertilizantes cujos preços não param de subir.
Felippe Serigati, economista pesquisador da FGV Agro, resume o dilema em uma frase direta: "Não se faz safra recorde em ano de El Niño". A história mostra que isso é verdade. O último El Niño deixou cicatrizes na produção agrícola nacional. Quando o fenômeno climático bate à porta, as expectativas de colheita recordista simplesmente desaparecem.
O problema não é novo. Brasil e mundo já vivenciaram esse roteiro antes. Mas a combinação atual torna o cenário mais desafiador. Os fertilizantes — dependência crítica da agricultura moderna — têm custos atrelados a mercados internacionais. E esses preços têm acompanhado a volatilidade global, pressionando o bolso de quem planta.
Para o produtor tocantinense, isso significa decisões duras nos próximos meses. Plantar menos e arriscar faturamento reduzido? Manter a produção e sofrer com custos maiores? Não há escolha fácil. E enquanto o setor toma essas decisões, a economia brasileira sente os efeitos. O agro é espinha dorsal do PIB nacional. Quando cresce, puxa a economia para cima. Quando entra em queda, o país inteiro sente.
As consequências começam agora mas vão além de 2024. A trajetória de queda até 2027 sinaliza que estamos falando de um período prolongado de dificuldades. Isso afeta não só o grande produtor, mas também fornecedores de insumos, transportadores, cooperativas e trabalhadores rurais.
Em cidades do interior do Tocantins e Brasil afora, o agronegócio move a economia local. Se a produção cai, menos dinheiro circula. Menos contratações. Menos investimentos em infraestrutura. O efeito cascata é real e atinge toda a cadeia.
O que torna essa situação particularmente delicada é a falta de controle. O agricultor não pode negociar com o El Niño nem com o mercado de fertilizantes. Pode apenas se adaptar. E adaptação, nesse contexto, significa apertar o orçamento, buscar eficiência e torcer para que os preços caiam ou que tecnologias mais baratas cheguem em tempo.
O setor já sabe o que vem pela frente. A pergunta agora é como a política agrícola e o governo vão responder a esse desafio. Existem formas de mitigar os efeitos? Há margens para políticas de estímulo ou crédito diferenciado? Enquanto essas perguntas ficar sem resposta clara, a agropecuária segue seu caminho: esperando o fim da tempestade.