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Brincadeiras adaptadas ganham espaço em lares tocantinenses

Famílias de Palmas e interior usam criatividade para incluir crianças neurodivergentes no cotidiano

📝 Redação CCN20 de agosto de 2026 às 10:52👁 2 leituras
Brincadeiras adaptadas ganham espaço em lares tocantinenses

Em um quintal de uma casa no bairro Taquaralto, em Palmas, o que parecia ser uma simples tarde de brincadeiras escondia um propósito maior. Uma mãe, com as mãos ocupadas em ajustar um carrinho de plástico, transformava um objeto comum em uma ferramenta para estimular o desenvolvimento de seu filho de 5 anos, diagnosticado com autismo. A cena não é isolada: em várias residências do Tocantins, pais e responsáveis têm buscado alternativas caseiras para promover a inclusão de crianças neurodivergentes, adaptando brinquedos e jogos ao cotidiano.

A prática ganhou força nos últimos dois anos, especialmente após a pandemia, quando muitas famílias passaram a ter mais tempo em casa e a observar de perto as necessidades de seus filhos. Em Araguaína, uma professora da rede municipal relatou que, em sua turma de educação infantil, pelo menos três crianças com diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista) passaram a frequentar a escola com mais frequência depois que os professores começaram a adaptar atividades lúdicas. "Eles não conseguiam se concentrar em brinquedos tradicionais, então passamos a usar materiais com texturas diferentes ou sons que chamassem mais a atenção", contou ela, que pediu para não ser identificada. Em Porto Nacional, uma mãe de dois filhos — um com TEA e outro com TDAH — criou um cronograma de brincadeiras adaptadas, intercalando jogos de montar com atividades ao ar livre. "No começo foi difícil, mas aos poucos a gente aprende a observar o que eles gostam e o que os acalma", disse.

O movimento não se limita às grandes cidades. Em municípios menores, como Augustinópolis e Xambioá, famílias têm compartilhado experiências em grupos de WhatsApp e redes sociais, trocando dicas sobre como transformar objetos do dia a dia em brinquedos terapêuticos. Em Gurupi, uma terapeuta ocupacional que atende crianças neurodivergentes em clínicas particulares conta que muitos pais chegam até ela com dúvidas sobre como adaptar brinquedos em casa. "Às vezes, uma simples garrafa pet com grãos de feijão dentro vira um instrumento musical que ajuda na coordenação motora", explicou. Segundo ela, a falta de recursos financeiros para comprar brinquedos específicos tem levado as famílias a buscar soluções criativas, muitas vezes com resultados surpreendentes.

A Secretaria de Estado da Educação e Esportes do Tocantins (Seduc) informou que, desde 2022, tem investido em formações para professores da rede pública sobre inclusão de crianças neurodivergentes. Em 2023, foram capacitados cerca de 200 educadores em oficinas que abordavam estratégias lúdicas para o ensino. "A gente percebeu que muitos professores não sabiam como lidar com crianças que tinham dificuldade de interação, então trouxemos profissionais para mostrar alternativas práticas", afirmou um técnico da Seduc, que também pediu anonimato. A pasta não informou se há previsão de ampliar o programa para 2024.

Para as famílias, o desafio vai além da adaptação dos brinquedos. Em Palmas, uma mãe de um menino de 7 anos com TEA contou que, mesmo com as adaptações, a escola ainda não oferece suporte suficiente. "Ele adora brincar com blocos de montar, mas na escola os professores não têm tempo para acompanhar ele como a gente faz em casa", desabafou. Em Araguaína, uma psicóloga que atende crianças neurodivergentes em consultório particular destacou que a falta de profissionais especializados no interior do estado é um dos principais obstáculos. "Muitas famílias precisam se deslocar para Palmas ou Gurupi para ter acesso a terapias, o que encarece ainda mais o processo", disse.

A prática de adaptar brinquedos, no entanto, tem mostrado resultados que vão além do desenvolvimento infantil. Em Paraíso do Tocantins, uma avó que cuida de sua neta com TEA criou um grupo de mães no município para trocar experiências. "A gente se reúne uma vez por semana para brincar com as crianças e mostrar para elas que não estão sozinhas", contou. A iniciativa, que começou informal, já conta com a participação de dez famílias e chamou a atenção da prefeitura local, que passou a ceder um espaço público para as reuniões.

Enquanto o poder público ainda busca formas de ampliar o atendimento, as famílias seguem encontrando na criatividade uma aliada. Em Palmas, uma loja de brinquedos educativos relatou um aumento de 30% nas vendas de itens adaptados desde o início do ano. "As pessoas estão mais atentas às necessidades das crianças e procurando alternativas", afirmou o dono do estabelecimento. Para ele, o movimento reflete uma mudança de mentalidade, mas ainda há muito a ser feito. "A gente sabe que não é só brincar, é sobre dar condições para que essas crianças tenham uma vida mais plena", concluiu.

O que vem por aí

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) informou que estuda a criação de um programa piloto para distribuição de kits de brinquedos adaptados em unidades básicas de saúde de municípios com maior demanda. A proposta, ainda em fase de análise, prevê a capacitação de agentes comunitários para identificar famílias que possam se beneficiar do projeto. Em Palmas, a prefeitura já anunciou que vai ampliar o número de vagas em escolas municipais com turmas inclusivas, mas não detalhou prazos ou recursos.

Enquanto as políticas públicas avançam — ou não — em ritmo lento, as famílias seguem na linha de frente, transformando o cotidiano em oportunidades. Em Xambioá, uma mãe resumiu o sentimento de muitos: "A gente não espera por ninguém. Se o brinquedo não existe, a gente inventa."