Ex-presidiário agora médico leva esperança a detentos do Tocantins
Wallace William da Costa cumpriu pena por tráfico, entrou na universidade federal e voltou à cadeia para mostrar que reinvenção é possível.

Wallace William da Costa poderia ter guardado sua história só para si. Aos 44 anos, ele carrega na memória os anos que passou atrás das grades por envolvimento com tráfico. A trajetória que o levou dali até uma sala de aula de Medicina em universidade federal tocantinense é prova viva de que destino não é sentença. Mas decidiu fazer diferente. Voltou a uma unidade prisional estadual e sentou-se diante de homens ainda cativos para contar como saiu daquele poço.
Não foi discurso genérico de motivador profissional. Wallace falou de quem viveu cada centímetro daquele espaço. Conhece o barulho das grades, o peso das paredes, a luta interna contra os próprios demônios. Seus ouvintes não estavam ouvindo um outsider oferecendo esperança de longe. Estava diante daquele que esteve exatamente onde eles permanecem agora.
A mensagem dele é simples e sem glamour: passei por isso, consegui sair, vocês conseguem também. Não traz ilusões fáceis nem fingida comiseração. Traz apenas o fato de um homem que cometeu erros, enfrentou consequências e traçou novo rumo. A reconstrução aconteceu passo a passo, sem atalhos milagrosos ou respostas prontas.
Para Wallace, o sucesso de sua fala não se mede por entusiasmo da plateia. "Se dez mil pessoas duvidarem de mim e um único detento despertar para a possibilidade de mudança, já será uma vitória", afirmou o estudante em conversa posterior. Essa convicção marca a diferença entre quem fala por falar e quem realmente acredita no que diz.
No Tocantins, o sistema carcerário enfrenta pressões constantes: celas lotadas, estrutura frágil, poucas oportunidades reais de reinserção social. Nesse cenário, testemunhas vivas como a de Wallace ganham peso diferente. Não é estatística, relatório ou promessa de político. É um homem em pé, matriculado numa faculdade, carregando a prova de que aquele portão não precisava ser permanente.