Açúcar volta a brilhar na safra 2026 enquanto etanol segue em baixa
XP Investimentos projeta virada no setor sucroenergético com mais cana destinada ao açúcar, mas alerta para riscos no radar

A safra 2026/27 da cana-de-açúcar promete reconfigurar o mapa do setor sucroenergético no Brasil. Com a oferta de matéria-prima em alta e o mercado de etanol ainda fragilizado, as usinas devem redirecionar boa parte da produção para o açúcar, segundo análise da XP Investimentos. O movimento, que já começa a ser desenhado nos bastidores do agronegócio, pode devolver fôlego a um segmento que há anos luta para equilibrar preços e demanda.
A virada não chega por acaso. Nos últimos anos, o etanol enfrentou uma combinação de fatores que minaram sua competitividade: queda nos preços do petróleo, políticas públicas menos favoráveis e até mesmo a concorrência com veículos elétricos em mercados internacionais. Enquanto isso, o açúcar, mesmo com suas próprias instabilidades, mantém uma demanda mais estável — especialmente no exterior, onde países como China e Índia seguem ampliando suas compras. A XP estima que, na safra 2026/27, a destinação de cana para açúcar pode superar 45% do total processado, um salto em relação aos patamares recentes, quando a fatia mal chegava a 40%.
Para o Tocantins, estado que tem na cana-de-açúcar uma das principais culturas do agronegócio local, a notícia pode soar como um alívio. Regiões como o Bico do Papagaio e o Sudeste do estado, onde usinas como a Raízen e a BP Bunge já operam, devem sentir os efeitos de uma possível recuperação nos preços do açúcar. Em 2023, o Tocantins colheu cerca de 1,2 milhão de toneladas de cana, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura. Se a projeção da XP se confirmar, parte desse volume poderia ser redirecionada para açúcar refinado, o que, na prática, significa mais empregos temporários nas lavouras e nas indústrias durante a safra.
O otimismo, porém, vem com um alerta. A XP aponta que um eventual agravamento da crise climática — com secas prolongadas ou geadas fora de época — poderia reduzir a oferta de cana e, consequentemente, atrapalhar os planos das usinas. Outro ponto de atenção é a política de preços do governo federal. Se o etanol voltar a ser priorizado em programas como o RenovaBio, por exemplo, as usinas podem voltar a apostar nele, mesmo com margens apertadas. "A decisão final vai depender não só da cotação do açúcar no mercado internacional, mas também de como o governo vai lidar com os combustíveis nos próximos meses", afirmou um analista da XP, que pediu para não ser identificado.
O setor sucroenergético brasileiro já viveu momentos de glória e de aperto. Nos anos 2000, o etanol era visto como a salvação do campo, com o Proálcool ganhando força. Depois, a crise do preço do petróleo e a queda nos investimentos em flex-fuel abalaram o setor. Agora, com a perspectiva de um novo ciclo para o açúcar, as usinas precisam se preparar para um jogo de xadrez: garantir contratos de exportação, renegociar dívidas e, acima de tudo, torcer para que o clima não traga surpresas.
Enquanto isso, no Tocantins, produtores rurais e cooperativas já começam a fazer contas. Se a safra 2026/27 realmente confirmar a tendência, o estado pode se tornar ainda mais atrativo para novos investimentos em unidades de processamento. Mas, como sempre, o sucesso vai depender de fatores que vão muito além do controle local — como a cotação da saca de açúcar na Bolsa de Nova York ou a decisão de Brasília sobre os combustíveis.
A próxima reunião do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Consecana), marcada para outubro, deve trazer mais clareza sobre os rumos do setor. Até lá, usinas, fornecedores e trabalhadores do campo seguem de olho nos termômetros, nos contratos e, claro, nos noticiários.