Fazendas de cliques na Bolívia expõem riscos para eleições no Brasil
Consultor político estrangeiro preso em Santa Cruz de la Sierra por operação de manipulação digital que pode afetar pleitos na América Latina

Fernando Cerimedo, consultor político ligado a setores de direita e extrema-direita da América Latina, foi preso em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, acusado de comandar uma estrutura conhecida como "fazenda de cliques". A operação, revelada por investigações locais, usava perfis falsos em redes sociais para amplificar conteúdos políticos, distorcendo debates e influenciando discussões online. O caso ganhou atenção por expor como mecanismos de manipulação digital podem interferir em processos eleitorais, inclusive no Brasil.
A prisão de Cerimedo ocorreu após investigações da Justiça boliviana identificarem um endereço em Santa Cruz de la Sierra como sede de uma rede de perfis automatizados. Esses perfis, criados para simular engajamento, eram usados para impulsionar pautas políticas específicas, muitas vezes com viés partidário. A prática, conhecida como *click farming*, envolve a contratação de pessoas ou uso de robôs para gerar curtidas, compartilhamentos e comentários em massa, criando a falsa impressão de apoio popular a determinadas ideias ou candidatos.
No Brasil, onde eleições municipais e estaduais estão sempre sob escrutínio de estratégias digitais, casos como esse levantam alertas sobre a vulnerabilidade do debate público. Em 2020, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia identificado tentativas de disseminação de notícias falsas em municípios tocantinenses, como Palmas e Araguaína, com uso de perfis automatizados. A Justiça Eleitoral local reforçou a fiscalização, mas especialistas em comunicação digital alertam que a sofisticação das técnicas de manipulação cresce a cada pleito.
A prisão de Cerimedo não é um caso isolado. Na Bolívia, a operação foi vinculada a uma rede maior, com ramificações em outros países da região. Documentos obtidos pela imprensa local mostram que a estrutura operava há pelo menos dois anos, com foco em eleições na América do Sul. A Polícia Boliviana informou que a investigação ainda está em andamento, mas já há indícios de que a rede atuava em parceria com assessorias de campanha em países vizinhos.
Para quem vive no Tocantins, o episódio serve como um lembrete de que a desinformação não tem fronteiras. Em 2022, o estado registrou um aumento de 30% nas denúncias de perfis falsos nas redes sociais durante o período eleitoral, segundo dados da Procuradoria Regional Eleitoral no Tocantins. Em Palmas, bairros como o Centro e o Plano Diretor foram os mais afetados por campanhas de desinformação, com postagens viralizando rapidamente antes de serem desmentidas.
A Polícia Federal, em parceria com o TSE, tem intensificado ações para combater a disseminação de *fake news* em períodos eleitorais. Em 2024, a Justiça Eleitoral do Tocantins já realizou treinamentos com servidores públicos e comunicadores para identificar sinais de manipulação digital. A coordenadora do Núcleo de Combate à Desinformação do TSE no estado, promotora Maria Helena Costa, destacou que a fiscalização será ainda mais rigorosa nas eleições municipais deste ano.
A prisão de Cerimedo também reacendeu discussões sobre a regulação das redes sociais no Brasil. Projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional propõem medidas para obrigar plataformas digitais a identificar e remover perfis automatizados não declarados. No Tocantins, o deputado estadual Carlos Gaguim (União) já se manifestou a favor de uma legislação estadual que coíba práticas de manipulação digital, especialmente em municípios menores, onde a fiscalização é mais difícil.
Enquanto a investigação na Bolívia avança, o caso deixa uma pergunta no ar: até que ponto redes de manipulação digital podem influenciar eleições no Brasil? Em 2020, o TSE suspendeu contas de candidatos em pelo menos três municípios tocantinenses por uso de perfis falsos. Agora, com técnicas cada vez mais sofisticadas, a Justiça Eleitoral e os partidos políticos precisam se adaptar rapidamente para garantir eleições livres e transparentes.
A Polícia Boliviana informou que a operação contra Cerimedo ainda pode render novas prisões, inclusive de brasileiros envolvidos na rede. Enquanto isso, no Tocantins, a Procuradoria Regional Eleitoral mantém um canal de denúncias para casos de desinformação, disponível no site do TSE. A população também pode colaborar reportando perfis suspeitos às plataformas digitais, que têm obrigação legal de investigar denúncias em períodos eleitorais.
O caso serve como um alerta para eleitores e candidatos: em um ambiente digital cada vez mais complexo, a transparência e a verificação de informações são armas essenciais para preservar a democracia.