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Jéssika Borges volta do exterior e viraliza no carvão do TO

Estudante tocantinense que estudou na Europa mostra rotina na carvoaria do pai em Araguaína e ganha milhões de visualizações

📝 Redação CCN29 de junho de 2026 às 10:06👁 7 leituras
Jéssika Borges volta do exterior e viraliza no carvão do TO

No meio do pó preto que cobre as mãos e a roupa, Jéssika Borges, 25 anos, sorri enquanto empurra um carrinho cheio de lenha para dentro do forno. A cena, gravada em uma carvoaria na zona rural de Araguaína, no norte do Tocantins, não tem nada de glamuroso — mas é justamente esse contraste que chamou a atenção de milhões de pessoas nas redes sociais. O vídeo, postado há duas semanas, já ultrapassou 3,5 milhões de visualizações no TikTok e viralizou entre internautas que se surpreenderam com a trajetória da jovem: formada em Relações Internacionais pela Espanha, ela trocou a vida acadêmica europeia pela rotina de trabalho pesado ao lado do pai, que há mais de 20 anos vive da produção de carvão no interior tocantinense.

A decisão de Jéssika não foi repentina. Depois de concluir a graduação em Madri, ela voltou ao Tocantins em 2023 para ajudar a família após a morte da mãe, que sofria com problemas de saúde. A ajuda no negócio do pai, que sempre trabalhou com carvão, não foi uma imposição, mas uma escolha. "Eu não vim para ficar só na teoria. Queria entender como é a vida de quem produz o que a gente consome", contou Jéssika em entrevista ao *Capital da Notícia*. No vídeo, ela aparece com o rosto e os braços cobertos de fuligem, carregando lenha e mexendo no forno — uma imagem que, para muitos, representa o oposto do que se espera de uma profissional com diploma internacional.

O choque entre as duas realidades — a sala de aula em Madri e a carvoaria em Araguaína — não passou despercebido. Em menos de 15 dias, o conteúdo gerou mais de 50 mil comentários, muitos deles questionando como uma jovem com formação superior poderia se adaptar a um trabalho tão árduo. Jéssika, no entanto, não vê contradição. "Muitas pessoas me perguntam se eu não estou ‘rebaixando’ meu currículo. Mas eu não vejo assim. Estou aprendendo com quem sabe fazer, e isso tem valor", afirmou. O pai, José Borges, 52 anos, que trabalha com carvão desde os 14, também comemora a presença da filha. "Ela sempre foi estudiosa, mas agora entende o suor que a gente passa. Isso é coisa que nenhum livro ensina", diz, orgulhoso.

Para quem vive no Tocantins, a história de Jéssika ressoa de forma especial. Em um estado onde a economia ainda depende fortemente de atividades como a agricultura, a pecuária e a produção de carvão — setor que, segundo dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), movimenta cerca de R$ 12 milhões por ano —, o vídeo trouxe à tona uma realidade que muitos conhecem de perto, mas poucos discutem abertamente. Em Araguaína, por exemplo, bairros como o Setor Couto Magalhães e a Vila São José abrigam dezenas de pequenas carvoarias, que empregam moradores locais e sustentam famílias há gerações. A produção de carvão no Tocantins, embora informal em muitos casos, é uma das principais fontes de renda para comunidades rurais, especialmente no período de entressafra da soja e do milho.

A repercussão do vídeo também levantou debates sobre a valorização do trabalho braçal no estado. Em Palmas, onde a discussão sobre diversificação econômica e qualificação profissional é constante, a história de Jéssika foi compartilhada por professores e estudantes da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que enxergaram nela um exemplo de resiliência. "É comum vermos jovens com diploma buscando empregos ‘de escritório’, mas poucos param para pensar no valor do trabalho manual. Jéssika mostrou que não há hierarquia entre os saberes", comentou a professora de Sociologia da UFT, Dra. Maria Aparecida Silva.

Agora, Jéssika planeja transformar a experiência em conteúdo educativo. Ela já foi convidada para palestras em escolas de Araguaína e Palmas, onde deve falar sobre a importância do carvão na economia local e os desafios do setor, como a fiscalização ambiental e a falta de regularização de muitos produtores. "Quero mostrar que essa atividade não é só ‘suja’ ou ‘atrasada’. Ela faz parte da nossa história e precisa ser reconhecida", declarou. O pai, por sua vez, já pensa em ampliar a produção com a ajuda da filha. "Se ela quiser, a gente pode modernizar um pouco o negócio. Mas o jeito tradicional também tem seu valor", diz José, enquanto acende outro forno.

A história de Jéssika Borges ainda não terminou. Enquanto o vídeo continua a circular, ela já recebe propostas de marcas e veículos de comunicação interessados em contar sua trajetória. Mas, por enquanto, a prioridade é continuar no chão da carvoaria, onde o cheiro de lenha queimada e o barulho dos martelos se misturam ao som das risadas da jovem e do pai. Afinal, como ela mesma diz, "a vida não é feita só de títulos, mas também de mãos calejadas e histórias que ninguém escreve nos livros".