Demolições no Lago de Palmas expõem drama de moradores
Chácaras às margens da UHE Lajeado são derrubadas por decisão judicial iniciada em 2014; aposentado perde R$ 500 mil em obra

A Justiça determinou o início da demolição de chácaras construídas às margens do lago da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães (UHE Lajeado), em Palmas, na manhã desta terça-feira (18). A operação, que já derrubou pelo menos uma construção, afeta famílias que viveram décadas no local, algumas com investimentos de meio milhão de reais. Entre os atingidos está Aloízio Mota, 85 anos, que aplicou R$ 500 mil em sua propriedade antes de perder tudo.
O processo judicial que levou às demolições começou em 2014, quando a Justiça reconheceu que as áreas ocupadas não tinham documentação regular. Desde então, os moradores resistiram na Justiça, mas a decisão final determinou a remoção das estruturas. A UHE Lajeado, inaugurada em 2002, formou um lago de 630 km², submergindo antigas áreas rurais e forçando deslocamentos. Muitos dos atuais ocupantes chegaram após a construção da usina, aproveitando terras ainda não completamente regularizadas.
Para Aloízio Mota, o prejuízo não é apenas financeiro. Ele conta que a casa, construída com recursos de uma vida de trabalho, abrigava não só sua família, mas também memórias de décadas. "Perdi tudo o que tinha. Não recebi indenização justa", desabafou o aposentado, que agora busca alternativas para se abrigar. A situação dele não é isolada: outros moradores também relatam terem investido em benfeitorias sem nunca terem a posse legal da terra.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) informou que as demolições seguem o cronograma judicial e que as famílias removidas serão encaminhadas para programas de reassentamento. No entanto, moradores reclamam da demora na definição de compensações e da falta de opções de moradia acessíveis na capital. A Defensoria Pública do Tocantins acompanha o caso e já ingressou com ações para garantir direitos básicos dos atingidos.
A UHE Lajeado, operada pela Energisa, é uma das principais fontes de energia do estado, mas sua construção há 22 anos deixou um rastro de conflitos fundiários. Em Palmas, bairros como Taquaralto e Jardim Aureny já enfrentaram problemas semelhantes com ocupações irregulares em áreas de proteção ambiental. A prefeitura da capital, por sua vez, tem buscado regularizar loteamentos, mas a burocracia e a falta de recursos emperram soluções rápidas.
O caso reacende discussões sobre a regularização fundiária no Tocantins, onde milhares de famílias vivem em áreas sem documentação. Projetos como o *Mais Habitação*, do governo estadual, prometem agilizar processos, mas a burocracia e a lentidão do Judiciário mantêm famílias em situação de incerteza. Enquanto isso, Aloízio Mota e outros moradores aguardam por respostas que possam minimizar o prejuízo de uma vida inteira.
A próxima etapa prevê a remoção de mais três chácaras nos próximos dias. A Justiça já determinou que as áreas sejam devolvidas ao leito natural do lago, mas a fiscalização e o reassentamento das famílias ainda são pontos de tensão. Autoridades locais prometem acompanhar o processo, mas a pressa das demolições deixa dúvidas sobre o destino dos atingidos.