Tocantins rejeita a lógica do mandato como moeda de troca
Editorial do AF Notícias critica a transformação de cargos públicos em moeda de barganha política no estado

O Tocantins vive um momento de alerta quando o assunto é a integridade dos mandatos eletivos. Nas últimas semanas, o debate sobre a compra de cargos públicos ganhou força nas rodas de conversa de Palmas e de outras cidades do estado, colocando em xeque a lisura do processo político local. A discussão não é nova, mas ganhou novos contornos após denúncias recentes que expõem como alguns políticos têm tratado os cargos como moeda de troca, seja para garantir apoio em eleições ou para viabilizar interesses privados.
A prática, que remonta a décadas em várias regiões do Brasil, encontrou terreno fértil no Tocantins. Em um estado onde a política sempre teve peso decisivo na definição de rumos — como na definição de secretarias, nomeações para autarquias e até mesmo em contratos públicos —, a lógica do "toma lá, dá cá" tem se tornado cada vez mais explícita. Não são raros os casos em que vereadores, deputados e até mesmo prefeitos negociam apoios em troca de nomeações ou de facilidades em licitações. Em Palmas, por exemplo, o assunto ganhou destaque após a divulgação de áudios e mensagens que sugerem acordos entre parlamentares e gestores públicos para a ocupação de cargos estratégicos.
O problema não se resume a uma questão moral. Ele afeta diretamente a vida do cidadão tocantinense, que muitas vezes vê serviços públicos serem paralisados ou direcionados para interesses particulares. Em Gurupi, uma das cidades mais populosas do interior, a nomeação de um secretário municipal gerou polêmica após denúncias de que o cargo teria sido oferecido em troca de apoio político em eleições passadas. Em Araguaína, outro município de peso, a prática de troca de favores em nomeações para a saúde e educação já foi alvo de investigações pelo Ministério Público Estadual. E em Porto Nacional, a situação não é diferente: a prefeitura local já teve que lidar com processos judiciais por irregularidades em contratações que, segundo apurações, teriam sido feitas sem critérios técnicos.
O que está em jogo não é apenas a ética, mas a eficiência do Estado. Quando cargos públicos são ocupados por pessoas que não têm qualificação ou compromisso com o serviço, os reflexos são imediatos. Na saúde, por exemplo, a falta de profissionais capacitados em postos-chave pode atrasar a implementação de programas essenciais, como o Mais Médicos ou a ampliação de leitos. Na educação, a nomeação de diretores sem perfil pedagógico afeta a qualidade do ensino nas escolas estaduais e municipais. E na segurança, a indicação de pessoas sem experiência para cargos de confiança pode comprometer operações importantes, como o combate ao crime organizado.
A população tocantinense já sente na pele os efeitos dessa cultura. Em 2023, o estado registrou um aumento de 15% nos casos de irregularidades em licitações, segundo dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-TO). Além disso, o número de processos por improbidade administrativa cresceu 22% em relação ao ano anterior, conforme levantamento do Ministério Público Estadual. Esses números não são meros dados estatísticos: eles representam dinheiro público desviado, serviços mal prestados e oportunidades perdidas para quem mais precisa.
A solução, no entanto, não depende apenas de fiscalização. É preciso que a sociedade cobrar seus representantes e que os órgãos de controle atuem com rigor. O governador Wanderlei Barbosa (PSD) já anunciou medidas para reforçar a transparência na gestão pública, como a criação de um comitê de ética para avaliar nomeações e a implementação de um sistema de ouvidoria aberta à população. Em Palmas, a Câmara Municipal também tem discutido projetos para restringir a nomeação de cargos comissionados sem critérios claros, mas a resistência de alguns parlamentares tem atrasado a aprovação.
O que está em jogo é a credibilidade do Tocantins. Um estado que quer crescer precisa de instituições sólidas e de políticos que entendam que o poder não é um bem pessoal, mas uma responsabilidade coletiva. A lógica do mandato como moeda de troca não só descredencia quem a pratica, como também prejudica quem depende desses serviços. É hora de o Tocantins mostrar que pode ser diferente, que pode ser um exemplo de gestão pública transparente e eficiente.
Enquanto isso, a sociedade segue atenta. Em Palmas, grupos de cidadãos têm se organizado para monitorar nomeações e cobrar explicações de gestores. Nas redes sociais, a hashtag #TocantinsSemTroca viralizou, reunindo milhares de manifestações contrárias à prática. A pressão popular, aliada à atuação do Ministério Público e do TCE, pode ser o caminho para mudar essa realidade. Afinal, não é apenas um cargo que está em jogo, mas o futuro de um estado que tem tudo para dar certo — desde que seus líderes parem de tratá-lo como um balcão de negócios.